– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

Últimas

A white shadow sits next to me when I wake up
Drowning lines on the walls and crossing them
With sticks
Smiles
Curses and bad words
Red and brown lipstick

Music figures
Not a single sheet although
There aren’t five lines
Or a treble clef
Only a pause

Longer than the fraction of seconds
That flies by
While the white shadow drowns its lines
On the walls of my heart
On my teeth

There’s this dryness
This pure dryness on my feet
A drying and dying skin
Flaking on my room
Like yellow snow
In slow motion
On the walls
Over the lines
Over the sticks
Over the lipstick marks
Over the bad words
Over the pause
Over the green mold smelling like
The very same shadow
Drowning lines

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Monólogo de um andarilho

“Duda tá com o braço quebrado de novo, porque Duda escorregou, caiu, Duda apanhou. Tem hora que é assim, Duda apanha, leva soco no olho e vai dormir inchada. Mulher gosta de apanhar; dó dorme sorrindo com olho inchado e dor no corpo, porque apanhou do macho. (…) Lorena apareceu com o braço quebrado mais uma vez. O Luiz não gosta da comida dela. O Pereira não gosta de curvas na roupa passada. Igual mainha; mainha tomava na cara e cortava a boca, escorria sangue. Com o braço quebrado, hematoma na coxa, mainha dorme sorrindo com um dos olhos mais fechado que o outro. De noite dá pra ouvir ela acordando assustada, com dor no braço e mente pra mim dizendo que foi porque dormiu em cima dele. (…) tem mulher que gosta de apanhar. Duda apareceu com o braço quebrado de novo na mercearia do seu Donato. Um dia aquele braço não sara e aí o Lobão vai ter que passar a quebrar o outro (…) Lorena tá com o olho inchado de novo, mainha viu. Tem o Gilberto (…) Joana, vizinha de mainha, faz um café muito bom e solta a língua melhor ainda; foi lá em casa falar com mainha e contar como perdeu outro dente; parece que o Seu Felício coleciona eles (…) depois dona Joana contou que Gilberto é viado (…) ele é bom, ele não bate, ele não deixa mulher com sorriso no canto da boca depois de apanhar do seu macho (…) Todo mundo sabe que mulher boa é mulher que apanha e faz café (…)

Mainha anteontem foi dormir sorrindo, antes de me abandonar, deixando de presente o seu segundo marido, Teófilo, que me deixa de olho inchado todo dia de manhã (…)”

Nebulosa

ne.bu.lo.sa
sf (fem de nebuloso) 1 Cada uma das numerosas imensas massas de poeiras ou gases, altamente rarefeitos, no espaço interstelar da nossa Via-Láctea e de outras galáxias, que são observadas por sua absorção de luz de objetos mais afastados ou por sua reflexão ou reemissão de luz de estrelas associadas mais próximas. 2 Universo em formação. 3 Falta de nitidez ou clareza; confusão, nebulosidade. N. proto-solar, Cosm:nuvens de gases e poeira em rotação lenta, que deram origem ao sistema solar.

Com um pouco de dificuldade, ia girando as rodas da cadeira pelo corredor da casa. Parou no rumo da porta do quarto do filho, empurrou-a devagarzinho, esperando ver o vulto da criança coberto e uma atmosfera de inocência a acalmou um pouco. Não muito. Quis achar os cigarros, quis abrir o armário cheio de garrafas de uísque e conhaque; quis abrir a janela e pular.

Tentou.

A musculatura dos dois braços já estava se fortalecendo. As dores estavam presentes, mas Olívia as ignorava. Levantava bem cedo, antes do marido, que quando acordava via a a mulher já sentada na cadeira de frente com a penteadeira cantarolando uma música suave, como se tivesse ido parar lá magicamente.

Nada de mágica para Olívia. Tentava pular da cama pra cadeira, algumas manhãs caía. Custava se acomodar, a trocar a calcinha, a ir no banheiro mijar, a voltar, a pegar o vestido no guarda-roupa, a se trocar; mas se estacionava fielmente frente à penteadeira às sete e trinta da manhã, só pra que o marido a visse. Se acordasse alguns momentos antes, sentiria uma atmosfera nebulosa de ódio, insatisfação, tristeza e de violência que sucumbia a mulher.

Seus movimentos frente ao marido eram de uma leveza espetacular, como bruxa ou fada, erguia as coisas sem exibir esforço, sorria como uma criança em um parque e beijava o filho todo o tempo. Mas naquela noite, por pouco não conseguira bater os pés no chão de ódio. A única coisa que a impediu foi a falta de comando, porque a raiva que sentia, a faria bater os pés tão forte que acordaria os vizinhos do apartamento de baixo.

E foi em uma onda de autoflagelo que Olívia saiu pela casa afora, prendendo-se em um tapete ou outro. Bateu forte a porta da cristaleira ao tentar pegar um copo; derrubou o conhaque e o estilhaço fizera com que o marido lá dentro entrasse em alarde. Quis correr (e tentou, forçando ainda mais os braços pra girar as rodas) para a janela da cozinha e já não se poupou: Olívia gritava sem medo de sentir dor; não queria ser meiga, não queria sorrir, não queria beijar. Olívia queria uma faca no abdômen, um tiro embaixo do  queixo e duas mãos fortes no pescoço.

E foi assim que o marido a achou. Correu pra segurá-la firme e ganhou uma bela mordida. Estava transfigurada, possuída pelos demônios que mantinha guardada desde o acidente, pouco após o nascimento do filho. Nunca correria com ele em um pega-pega, e já não ousaria em posições na cama com o marido. Estava pra sempre estática.

O homem, chocado, quis saber o que acontecia. Perguntava o que era aquilo, e de onde aquilo surgira. Olívia apenas gritou mais uma vez: “Não quero saber, quero ir embora, correr desse mundo”, e o menino de pijamas aparecia espreitando a situação aterrorizado. O marido se aproximou, abraçou-a  forte e implorou pra que ela calasse a boca. Ela rebateu a pouco parte do corpo que controlava, mas sem sucesso acabou cedendo só em prantos. “O que foi isso, o que foi isso?”, perguntava o pobre coitado que se acostumara à Olívia penteadora de cabelos e cantarolante.

Olívia calada apenas pensava que no fundo, o marido não queria ouvir. Em um soluço, ergueu a cabeça, olhou no fundo dos olhos do marido e sorriu.

“Vamos dormir?”, ele perguntou já levantando e empurrando a cadeira rumo ao quarto do casal.

ERA

seu nome era Era
atravessava a rua correndo
jogava as sandálias no chão do quarto
enquanto deitada na cama,
de pernas pra cima,
agonizava de dor no pé

a verdade era que Era não dormia
passava quartos de horas
nas camas dos sonhos
que pareciam despencar do teto
do pequeno quarto de Era

três fios de cabelo arqueavam
contra o olho esquerdo, mas Era…
era uma vez que não se importava
seu nome era

ia ao supermercado particular:
garrafa d’água, ovo, margarina, pé-de-alface
era neles que se degustava
e deixava o melhor era pro fim:
era nas pedras de gelo que encontrava paz
na língua dormente, pesada

e ia arrastada para o chuveiro,
mas Era não arriscava  se manchar
no espelho já manchado
e se lançava no meio da corrente fina
como a da água da pia da sua cozinha
não da cozinha de Era

a cor do pé-de-Era desnutrido
se misturava ao chão-de-Era-do-banheiro
e ia lavando a cabeça com a pedra feita de sabão
era uma vez uma espuma que caía nos olhos
e sofrida batia as costas no registro do chuveiro
aquela Era sofrida, agonizante…

ainda sim Era, seu nome era
e descia devagar, friccionando as costas na parede
nua manchava o chão-de-Era-do-banheiro
era pra cama que Era de olhos vermelhos
e descontrolada seguia
molhada da Era-do-sofrimento-do-banheiro
mas lá não dormiu

seu nome era Era e fatigou, sim
a noite toda, uma geração talvez
cheia de calos nos pés dos olhos vermelhos
era de uma agonia pra outra que seguia
nessa Era de atravessar ruas correndo
como era aquele que só queria não chegar

do outro lado, em outra Era,
num era outra vez qualquer

#26

E foi só quando alguém disse “tá te esperando, pacientemente” que me acalmei e pude finalmente fechar os olhos e dormir.

3/4

Era uma peça matreira e estranha. Seu metro e meio de altura surgia como uma profecia na maior parede do salão oficial de um museu monopolizador de almas geniais. Em cada obra uma energia se transportava como um fogo aceso, e a parede que antes se dependuravam europeias e latino-americanas obras, um raio nacional expirava morte e vida, aterrorizando o íntimo de quem a encarava.

Nas difíceis descrições que poderia se fazer de “3/4”, o maior problema seria de fato suportar lembrar de cada detalhe. Não que houvesse naquela pintura uma figura nojenta ou forte o bastante para estimular ânsias; tratava-se apenas do forte impacto que alguns símbolos comuns, nas cores e na iluminação correta poderiam provocar. E era assim que dificilmente alguém mantinha-se firme, fitando a peça. Por outro lado, se conseguisse analisar estrategicamente cada detalhe, hipnotizar-se-ia pela obra.

Um dos seguranças da ala principal do museu se sentia incomodado em permanecer frente à parede quase nua em que reinava a brutal peça. Mas resolveu fazer piadas: ninguém, exceto ele, permanecia muito tempo no salão. Como já dito, cada peça exalava uma energia poderosa que se somava. Apesar de “3/4” ficar sozinha no maior salão, as forças de outras obras poderiam ali se concentrar – ou por temer a deusa do salão, tentar de lá fugir. Era um jogo de espíritos, sensações e sons que o maldito museu conseguia estimular.

Seja o que fosse ali presente, semanalmente um velho senhor visitava a peça – ou o que ali habitava. Era um velho de sessenta e poucos anos, com óculos quadrados, com um início de calvície que não obtivera sucesso acima da testa.  Fitava “3/4” com intimidade, cada detalhe e quando se sentia repelido, focava-se na parede semi-nua do grande salão. Carregava consigo no bolso da calça um esboço amassado. E foi assim que um outro senhor o encontrou.

“Ouvi que vem sempre aqui”, brincou o recém-chegado. Um olhar ameaçador atravessou as lentes dos óculos até pousar como um raio nos olhos do outro. E “3/4” observava atentamente o que ocorria no grande salão. O segurança se mantinha firme, silencioso, tentando ouvir o que os velhos senhores diziam frente à aberração das tintas. Mas não conseguia.

“Amo-a com tudo que tenho. Mas a temo, como qualquer outro demônio. Um demônio forte”, disse o segundo senhor. O outro lançou o mesmo olhar acima descrito e comentou algo sobre assim ter de ser. Falou sobre o medo de perder a vida por uma aposta. Uma aposta mal cumprida e mal feita, que acabara sendo interpretada como roubo, que acabara nos casos policiais e terminara arquivada.

“E me batem na porta de minha casa, fazendo chacota, ralhando comigo, perguntando-me sobre você, infeliz, que brincou levando a obra”, disse o primeiro senhor colocando o esboço pra dentro do bolso.

Era uma cópia imperfeita. Nada se compararia à obra original.

E foi assim que os velhos iniciaram a desvendar “3/4”.

“Deveria parar de fazer esses desenhos. Uma hora você enloquece. Desista da peça; você não pode oferecer mais nada a ela”, lamentou o segundo senhor.

“Não há o que oferecer. A grande cruz branca e suja na iluminação radioativa ali sepultada já exibe a ausência de tempo. A ausência de respostas, de soluções…”

“Exibe o sacro sabor dos três quartos de corpo ligados por arames de ferro dourado. Ainda tenho a curiosidade de entender o porque de um braço esquerdo e duas pernas. Porque não outro braço?”

“Conhece alguém ou algo que seja inteiro? Mas eu digo isso de verdade. Inteiro. O todo. Conhece “um” e não apenas uma fração contínua de quase algo?”

“Me desculpe a crítica, mas até o corpo dessa pintura já foi inteiro um dia. Ele saiu inteiro em sua gênese.”

“Quer me fazer crer que sou o culpado pelo destroço? Olhe-me como o espaço em que isso foi gerado! Esse corpo jogado aos pés de dois traços cruzados!”

“Daí o meu medo talvez. Da mesma maneira que me lembra a Santa Inquisição cortando tudo, me lembra as encruzilhadas diabólicas da consumação humana”, o segundo velho respondeu, deu meia volta e observou que o segurança se aproximara mais e mais. Continuou: “A carne é branca e nem está suja de sangue como o chão.”

“Diga pele, não carne.”

“Lembre-se que foi meu nome que ela carregou.”

“Lembre-se que essa obra foi criada por mim.”

Silêncio. De minutos e mais.

“Acho graça nas cinzas, na fumaça, em um povo de joelhos ali, em volta dos pedaços de corpo.”

“Entenda, o corpo está armado como um boneco. Um boneco sem cabeça e sem o braço direito, é verdade, mas ricamente ligado por arames dourados que podem ser ouro. Ou apenas um brilho refletido pela iluminação de um sol azul qualquer.”

“É muita viagem.”

“Foi o seu nome que esteve ali no papel de criador.”

“Eram só as siglas. E acabei por inventar um leve romance em torno delas, considerando que as mesmas siglas são de um pintor famosissímo do século treze. Qual é mesmo o nome dele?”

O primeiro velho sentiu um aperto. De todos os tormentos que o segundo senhor poderia provocar, o fato de não ter dentro de si o reconhecimento da criação de “3/4” era o pior. Mas engolia tudo e respondia bradamente:

“Leia embaixo da obra. É lá que os grandes nomes ficam escritos” – ficou em silêncio. Retomou, “Romance, que romance?”

O outro soltou uma gargalhada e observou que o segurança se aproximava mais para ouvir. Respondeu:

“E foi assim que o romance se deu: certa vez encontrei um amigo de infância mexendo nos mistérios de um esboço qualquer que acabou dando em uma magnífica e genial obra. Tratavam-se de três pedaços de um corpo, três membros, dois deles pernas, um deles braço, e não havia cabeça ou qualquer coisa que a indicasse. Estava erguido por arames dourados por baixo de uma cruz que exibia crueldade faminta. E em torno, pequenos humanos se comportavam como súditos, cultuando a imagem. E a cruz brilhava, e eu sonhava com o maldito quadro.”

“Apostei que isso não aconteceria mais se você o encarasse.”

“Encarei e você perdeu a aposta. No meu direito o levei.”

“Endereçou a um idiota de título qualquer! Acabou por entregar na mão de colecionadores que acabaram tornando essa monstruosidade a mais divina arte do século!”

“E adiantou”, brincou ele. “Olhe bem. Você está velho. Depois de anos e anos, diriam ‘3/4’, mas nunca seu nome. As siglas soam mais forte.”

“Procuraram saber de quem era a obra. Você disse que era sua –  e eram as iniciais somente. Na contra-prova você mal esboçou um rosto. E caíram na gargalhada.”

“Procuraram meu velho amigo pintor, considerando-o um ladrão da arte do século treze. Não tentaram perícia no quadro. Acabaram por nomeá-lo doutro século.”

“E cá estou a temer o quadro que eu mesmo fiz. Como temer o que criei?”

“Não sei, meu querido. Mas saiba de algo: a criação não é só sua. Não seria tão genial se não guardasse uma história tão bonita.”

“E triste.”

“Mas nada é tudo por inteiro. É sempre uma pedaço, uma fração.”

“Plagiador de palavras.”

“Ladrão dos bons sonhos.”

O segurança ouvia mais atento e a tudo o que diziam. Temia que algo acontecesse, que os velhos se atacassem.

“Não seja bobo! Tem temido ‘3/4’ por anos, décadas e nem ao menos sabe explicar isso!”

“Um tormento qualquer.”

“Sei eu bem o que é um tormento. Você me tirou o direito de ser o pintor de ‘3/4’.”

“Só lhe fiz um favor. Afinal, nada pode ser tudo por inteiro, como você mesmo diz. Nem mesmo o criador de algo tão intenso”, e virou-se, tentando sair do salão. Focou o olho no segurança que atentamente ouvia o que era contado.

“E que sirva de exemplo”, brincou.

O primeiro velho não poupou lágrimas voláteis. Puxou um esboço do bolso e rasgou. Compreendera.

“O senhor quer um remédio, está se sentindo bem?”, perguntou o segurança se aproximando.

“Não, não. O que eu quero aquele desgraçado me roubou também.”

“O que? Me diga e eu trago pro senhor.”

“Isso não pode ser trazido e somente conquistado. É a compreensão de “3/4″. A compreensão que nunca tive.”

O segurança olhou-o sem compreender. O primeiro velho deixou o salão.

“3/4” ficou ali. Parado, perfeitamente imperfeito, incompleto, compreendido pelas metades, interpretado com louvor por um velho ladrão reclamão de sonhos.

“3/4” não recebeu mais visitas de seu criador.

“3/4” era encarado como a peça que dera a ideia de um romance a um segurança louco qualquer.

Mas faltava ainda algo em “3/4”. Algo mais concreto.

Faltava um final perfeito para “3/4”. Talvez terminasse nele mesmo. Talvez além ou aquém.

O assombro de “3/4” nunca terminava.

E foi assim que acabou ali, na parede semi-nua de um museu qualquer.

Pregação

Trombeta de ponteiros anuncia,
bola de fogo suspensa sobre
descamisados que insistem na trilha
ingrata sobre duas rodas.
Enquanto outros sobem à laje
e pairam sobre a falta de arte:
na própria realidade, ao observar
a própria sorte, nos telhados de lona,
nas portas de caibros, no tecido frio;
o próprio desalinho natural.

Portas de aço são erguidas;
carros acelerados, sinal aberto:
– Vai, filho da mãe! – anuncia
o motoqueiro que costura de mau
jeito os carros populares da cidade.
Histórias de manchete fatalmente esquecidas
servem ninar ao copo de café
sobre a mesa que atento
acompanha os óculos empurrados
ao pé de cada fato segundo indignação.

Uma surpreendida e recém-casada
jovem experimenta buscar o marido
trôpego na calçada que há horas
despertara alarido nos vizinhos.
Na fila do banco, num apelo pessoal,
o idoso reclama a prioridade
que não conseguira nem casa
por filhos ou netos ou do futuro –
ou da morte tão presente.

Uma vela apagada,
ao lado de vodca barata
e de um animal morto,
permanece intacta e ameaçadora
No cruzamento da Rua Padre Antônio
e da Avenida Santo Expedito.
A construção em uma esquina qualquer,
como um mutante crescente se transforma
a cada sol pela magia do trabalho das mãos
das máquinas – e por que não,
pelo combustível de suor.

Um homem se mantém
sem dormir por pensar na mulher
até num dado urbano se transformar
ao pular de qualquer viaduto
pra fugir da própria sorte cotidiana de bar.
Não menos obscuro,
em uma sala de espera do hospital,
uma criança tem a morte dos pais narrada
e o futuro discutido – sem a ela nada perguntarem.

Os ângulos ainda giram impiedosos
e eis uma constatação:
outros são convocados pelo sol,
várias mulheres são traídas,
velhos reclamam e as crianças – futuro? -,
órfãs de seus respectivos destinos – absoluto.

Os sinos

Creiam ou não, o que me fez realmente acordar foi o cheiro forte de bebida, cigarros e uma seringa que me incomodava embaixo do braço esquerdo. Olhei para as pobres criaturas fragilizadas pelo álcool, pelo sono e pela teimosia, uma espécie de amontoado humano de sensível inocência. Soltei um tossido, dormira sem camisa e as janelas da casa estavam abertas. Provavelmente o dono da casa estúpido – que nem sabia eu quem era – tinha aberto as janelas pra não ficar cheiro algum. “Fracassou nisso, amigo”, pensei sentindo o forte odor de gente suada, cerveja e outras coisas. A porta da sala estava trancada e eu não iria até a da cozinha. Pulei a janela, mas antes de saltar do parapeito observei de novo meus amigos dormindo. Ana não estava lá, tampouco meu amigo Rodrigo.

Caminhar na calçada me fez sentir bobo e tolo, um péssimo amigo. Há mais de uma semana eu não tinha notícias de Rodrigo. Eu o visitava no hospital todos os dias e passava horas lá, mesmo sem que ele dissesse ou abrisse os olhos. Mas já não suportava vê-lo naquela situação. Ele não levantaria mais, nunca abriria os olhos, isso eu podia sentir. E Ana, pobre Ana! Poderia eu estar com ela e dizer “tudo vai ficar bem, eu prometo”, mas isso não seria exatamente o melhor a se fazer. “Pensei em desligar os aparelhos”, disse ela. A proibi de ver Rodrigo no hospital até que ela melhorasse o próprio psicológico.

À porta de minha casa, às cinco da manhã, lá estava ela sentada no paralelepípedo com a cabeça entre as pernas e com o rosto marcado de lágrimas secas. “Seus pais me disseram que você foi ao aniversário da menina da medicina. Foi bom?”, perguntou ela com um sorriso escondido. “Ela foi muito boa”, respondi num sarcasmo. Chequei os pulsos dela, sem nenhuma gaze. Uma casca de machucado se formava numa linha reta em cada pulso. “Isso aí melhorou?”, perguntei. Ana não respondeu. Alguns minutos de silêncio se passaram e ela desatou um choro impulsivo. “O Rodrigo é um idiota. Ele se jogou dentro do carro, uma hora não ia dar certo…” – e eu a interrompi dizendo: “Nós todos somos idiotas. Tem a ver com nosso sangue a irresponsabilidade com essa carne. Ela serve pra duas coisas, dizer que somos bonitos e pra machucá-la, mais nada.”

Poderia eu dizer o que se passou por minha cabeça a cada minuto seguinte à minha última frase. Ana, aos sete anos, afogou-se na piscina da própria casa. A única coisa que a salvou foi seu pai com uma respiração boca-a-boca – incesto. Aos quatorze, tomou todos os anti-depressivos da mãe – algo de família. E aos dezoito, impulsiva e louca, cortou os pulsos depois de saber que o namorado estava em coma e que não passaria mais que três dias – e fui eu quem a encontrei jogada em cima da cama do Rodrigo quando fui buscar algumas coisas pra mãe dele.

“Você está fedendo, Max”, disse ela enquanto enxugava os olhos. Soltei uma risada. “Não sou muito religiosa, Max, mas há um lugar que sempre paro pra pensar em respirar um pouco.” Torci a boca para a direita – ela falava sobre a longa e alta Ponte Branca. “Gosto de ouvir barulho de sinos. Como se eles sentissem compaixão de mim. Hoje é domingo, dia de missa e… É a Ponte Branca. De cima dela dá pra ver a Igreja de São…” – e eu a interrompi: “Não importa de quem é, vamos estar lá na missa das sete. Mas vamos sair daqui agora. Vou te levar pra tomar um café.” E lá fui eu carregando aquele peso gelado e inano que era Ana. Sofrida, amargurada – e não estou falando de mim. Bonitinha, é verdade, e suicida. Pensei longe, como sempre, perguntando-me como Rodrigo tinha realmente beijado e dormido com ela.

No café, falamos bobagens sobre professores, sobre a festa da noite anterior que eu não me lembrava muito e sobre o beijo sem-graça da garota da medicina. “É ela beija muito estranho”, comentou Ana, alimentando minha imaginação.

“Vamos pra ponte e de lá vamos ver se temos os pecados perdoados. Pelo menos uns dez porcento hoje” brinquei.

Ana ficou olhando o mar. Virava a tornar para a cidade, no rumo da Igreja de São… São. Até me dizer que não devia ter ido até lá. “Venho aqui por causa da água. Tenho medo, desde de…” e eu só respondi “Eu sei Ana. Mas por que sempre te vejo aqui?” Ela olhou para baixo e disse que eu iria achá-la louca. Pensei em dizer que já achava, independente de tudo, mas resolvi deixar pra lá. “Venho aqui por que sinto medo. E esse medo me faz bem de alguma forma. Você e todos os outros sabem das vezes que eu quis fugir daqui, desse mundo. Mas… Quando eu sinto muito medo, praticamente no fim, quero sempre voltar atrás. Por isso sou grata pelos remédios coagulantes de sangue, pelas lavagens estomacais e pelo amor do Rodrigo” – e ela parou para respirar e pensar – “Pelo seu amor, pelo de todos os nossos amigos.”

Por mim ela já teria ido embora, há muito tempo; mas Rodrigo gostava realmente dela. E os outros também. Então, fiquei na minha, portando-me como deveria.

“Você é o melhor amigo do Rodrigo. Ele disse há muito tempo que não me perdoaria se eu tentasse… de novo. Acha que se ele acordar, vai me perdoar? Mesmo sabendo que foi por medo de perdê-lo?” Olhei-a assustado. Não respondi. Finalmente senti um pouco de compaixão dela. Ela foi arrastando o corpo pela grade da ponte que a impedia de pular de lá até acabar sentada no chão aos prantos. Sentei-me ao lado dela e abracei-a com força, tentando ampará-la. “Ele não vai acordar“, pensei comigo.

Meus sinos tocaram.

Se ele acordasse, a deixaria pra viver, finalmente depois de tentar evitar a morte dela por tantas vezes. Entretanto, isso eu não contei. Enfim, compaixão, meus caros, como senti das criaturas jogadas pela casa no meio do álcool, dos cigarros e outras coisas mais.

|resenhadumsoluço|

pudera eu quebrar meus versos quebrar os braços da minha voz apertar correntes gritar de dor passar frio comigo a sós tremer de febre clamar pavor correr alterno dando nós ficar eu velho limpar meus lastros chamar meus entes pedir contato rasgar-me em apego rasgar meu verso dizer façanhas conquistar feridas limpar minha garganta gritando pedindo clamando tremendo nas minhas voltas insensatas que dou sobre mim mesmo

Moinho d’Água

Rosto.
Correndo.
É assim que todos estão,
Em torno dos seus olhos.
Há alguém
Com o dever de medir
Cada milímetro dos seus sóis.
Há outro
Que modula, faz pintura
O lenço de texturas que lhe cobre a face
E que outro retrata a madeira – sua moldura
Envolta de si.
Insiste matreira,
No brilho, no fundo,
No que lhe é oblíquo e turvo.
Outros projetam
A importância do seu corpo:
As voltas claras detalhadas,
Perfumadas no rosto de porcelana
Que gira lentamente, como um moinho
De águas tranquilas;
No fundo, no brilho
No turvo do oblíquo
Duas esferas como dois braços do eixo
Identidade
Brilhantes e ofuscantes
Nas águas claras de meu
Moinho d’Água.