– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

Pregação

Trombeta de ponteiros anuncia,
bola de fogo suspensa sobre
descamisados que insistem na trilha
ingrata sobre duas rodas.
Enquanto outros sobem à laje
e pairam sobre a falta de arte:
na própria realidade, ao observar
a própria sorte, nos telhados de lona,
nas portas de caibros, no tecido frio;
o próprio desalinho natural.

Portas de aço são erguidas;
carros acelerados, sinal aberto:
– Vai, filho da mãe! – anuncia
o motoqueiro que costura de mau
jeito os carros populares da cidade.
Histórias de manchete fatalmente esquecidas
servem ninar ao copo de café
sobre a mesa que atento
acompanha os óculos empurrados
ao pé de cada fato segundo indignação.

Uma surpreendida e recém-casada
jovem experimenta buscar o marido
trôpego na calçada que há horas
despertara alarido nos vizinhos.
Na fila do banco, num apelo pessoal,
o idoso reclama a prioridade
que não conseguira nem casa
por filhos ou netos ou do futuro –
ou da morte tão presente.

Uma vela apagada,
ao lado de vodca barata
e de um animal morto,
permanece intacta e ameaçadora
No cruzamento da Rua Padre Antônio
e da Avenida Santo Expedito.
A construção em uma esquina qualquer,
como um mutante crescente se transforma
a cada sol pela magia do trabalho das mãos
das máquinas – e por que não,
pelo combustível de suor.

Um homem se mantém
sem dormir por pensar na mulher
até num dado urbano se transformar
ao pular de qualquer viaduto
pra fugir da própria sorte cotidiana de bar.
Não menos obscuro,
em uma sala de espera do hospital,
uma criança tem a morte dos pais narrada
e o futuro discutido – sem a ela nada perguntarem.

Os ângulos ainda giram impiedosos
e eis uma constatação:
outros são convocados pelo sol,
várias mulheres são traídas,
velhos reclamam e as crianças – futuro? -,
órfãs de seus respectivos destinos – absoluto.

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Uma resposta

  1. “Uma vela apagada,
    ao lado de vodca barata
    e de um animal morto,
    permanece intacta e ameaçadora
    No cruzamento da Rua Padre Antônio
    e da Avenida São Expedito.”

    teu poema é bem descritivo, gostei do que ele diz.

    26/07/2011 às 13:03

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