– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

3/4

Era uma peça matreira e estranha. Seu metro e meio de altura surgia como uma profecia na maior parede do salão oficial de um museu monopolizador de almas geniais. Em cada obra uma energia se transportava como um fogo aceso, e a parede que antes se dependuravam europeias e latino-americanas obras, um raio nacional expirava morte e vida, aterrorizando o íntimo de quem a encarava.

Nas difíceis descrições que poderia se fazer de “3/4”, o maior problema seria de fato suportar lembrar de cada detalhe. Não que houvesse naquela pintura uma figura nojenta ou forte o bastante para estimular ânsias; tratava-se apenas do forte impacto que alguns símbolos comuns, nas cores e na iluminação correta poderiam provocar. E era assim que dificilmente alguém mantinha-se firme, fitando a peça. Por outro lado, se conseguisse analisar estrategicamente cada detalhe, hipnotizar-se-ia pela obra.

Um dos seguranças da ala principal do museu se sentia incomodado em permanecer frente à parede quase nua em que reinava a brutal peça. Mas resolveu fazer piadas: ninguém, exceto ele, permanecia muito tempo no salão. Como já dito, cada peça exalava uma energia poderosa que se somava. Apesar de “3/4” ficar sozinha no maior salão, as forças de outras obras poderiam ali se concentrar – ou por temer a deusa do salão, tentar de lá fugir. Era um jogo de espíritos, sensações e sons que o maldito museu conseguia estimular.

Seja o que fosse ali presente, semanalmente um velho senhor visitava a peça – ou o que ali habitava. Era um velho de sessenta e poucos anos, com óculos quadrados, com um início de calvície que não obtivera sucesso acima da testa.  Fitava “3/4” com intimidade, cada detalhe e quando se sentia repelido, focava-se na parede semi-nua do grande salão. Carregava consigo no bolso da calça um esboço amassado. E foi assim que um outro senhor o encontrou.

“Ouvi que vem sempre aqui”, brincou o recém-chegado. Um olhar ameaçador atravessou as lentes dos óculos até pousar como um raio nos olhos do outro. E “3/4” observava atentamente o que ocorria no grande salão. O segurança se mantinha firme, silencioso, tentando ouvir o que os velhos senhores diziam frente à aberração das tintas. Mas não conseguia.

“Amo-a com tudo que tenho. Mas a temo, como qualquer outro demônio. Um demônio forte”, disse o segundo senhor. O outro lançou o mesmo olhar acima descrito e comentou algo sobre assim ter de ser. Falou sobre o medo de perder a vida por uma aposta. Uma aposta mal cumprida e mal feita, que acabara sendo interpretada como roubo, que acabara nos casos policiais e terminara arquivada.

“E me batem na porta de minha casa, fazendo chacota, ralhando comigo, perguntando-me sobre você, infeliz, que brincou levando a obra”, disse o primeiro senhor colocando o esboço pra dentro do bolso.

Era uma cópia imperfeita. Nada se compararia à obra original.

E foi assim que os velhos iniciaram a desvendar “3/4”.

“Deveria parar de fazer esses desenhos. Uma hora você enloquece. Desista da peça; você não pode oferecer mais nada a ela”, lamentou o segundo senhor.

“Não há o que oferecer. A grande cruz branca e suja na iluminação radioativa ali sepultada já exibe a ausência de tempo. A ausência de respostas, de soluções…”

“Exibe o sacro sabor dos três quartos de corpo ligados por arames de ferro dourado. Ainda tenho a curiosidade de entender o porque de um braço esquerdo e duas pernas. Porque não outro braço?”

“Conhece alguém ou algo que seja inteiro? Mas eu digo isso de verdade. Inteiro. O todo. Conhece “um” e não apenas uma fração contínua de quase algo?”

“Me desculpe a crítica, mas até o corpo dessa pintura já foi inteiro um dia. Ele saiu inteiro em sua gênese.”

“Quer me fazer crer que sou o culpado pelo destroço? Olhe-me como o espaço em que isso foi gerado! Esse corpo jogado aos pés de dois traços cruzados!”

“Daí o meu medo talvez. Da mesma maneira que me lembra a Santa Inquisição cortando tudo, me lembra as encruzilhadas diabólicas da consumação humana”, o segundo velho respondeu, deu meia volta e observou que o segurança se aproximara mais e mais. Continuou: “A carne é branca e nem está suja de sangue como o chão.”

“Diga pele, não carne.”

“Lembre-se que foi meu nome que ela carregou.”

“Lembre-se que essa obra foi criada por mim.”

Silêncio. De minutos e mais.

“Acho graça nas cinzas, na fumaça, em um povo de joelhos ali, em volta dos pedaços de corpo.”

“Entenda, o corpo está armado como um boneco. Um boneco sem cabeça e sem o braço direito, é verdade, mas ricamente ligado por arames dourados que podem ser ouro. Ou apenas um brilho refletido pela iluminação de um sol azul qualquer.”

“É muita viagem.”

“Foi o seu nome que esteve ali no papel de criador.”

“Eram só as siglas. E acabei por inventar um leve romance em torno delas, considerando que as mesmas siglas são de um pintor famosissímo do século treze. Qual é mesmo o nome dele?”

O primeiro velho sentiu um aperto. De todos os tormentos que o segundo senhor poderia provocar, o fato de não ter dentro de si o reconhecimento da criação de “3/4” era o pior. Mas engolia tudo e respondia bradamente:

“Leia embaixo da obra. É lá que os grandes nomes ficam escritos” – ficou em silêncio. Retomou, “Romance, que romance?”

O outro soltou uma gargalhada e observou que o segurança se aproximava mais para ouvir. Respondeu:

“E foi assim que o romance se deu: certa vez encontrei um amigo de infância mexendo nos mistérios de um esboço qualquer que acabou dando em uma magnífica e genial obra. Tratavam-se de três pedaços de um corpo, três membros, dois deles pernas, um deles braço, e não havia cabeça ou qualquer coisa que a indicasse. Estava erguido por arames dourados por baixo de uma cruz que exibia crueldade faminta. E em torno, pequenos humanos se comportavam como súditos, cultuando a imagem. E a cruz brilhava, e eu sonhava com o maldito quadro.”

“Apostei que isso não aconteceria mais se você o encarasse.”

“Encarei e você perdeu a aposta. No meu direito o levei.”

“Endereçou a um idiota de título qualquer! Acabou por entregar na mão de colecionadores que acabaram tornando essa monstruosidade a mais divina arte do século!”

“E adiantou”, brincou ele. “Olhe bem. Você está velho. Depois de anos e anos, diriam ‘3/4’, mas nunca seu nome. As siglas soam mais forte.”

“Procuraram saber de quem era a obra. Você disse que era sua –  e eram as iniciais somente. Na contra-prova você mal esboçou um rosto. E caíram na gargalhada.”

“Procuraram meu velho amigo pintor, considerando-o um ladrão da arte do século treze. Não tentaram perícia no quadro. Acabaram por nomeá-lo doutro século.”

“E cá estou a temer o quadro que eu mesmo fiz. Como temer o que criei?”

“Não sei, meu querido. Mas saiba de algo: a criação não é só sua. Não seria tão genial se não guardasse uma história tão bonita.”

“E triste.”

“Mas nada é tudo por inteiro. É sempre uma pedaço, uma fração.”

“Plagiador de palavras.”

“Ladrão dos bons sonhos.”

O segurança ouvia mais atento e a tudo o que diziam. Temia que algo acontecesse, que os velhos se atacassem.

“Não seja bobo! Tem temido ‘3/4’ por anos, décadas e nem ao menos sabe explicar isso!”

“Um tormento qualquer.”

“Sei eu bem o que é um tormento. Você me tirou o direito de ser o pintor de ‘3/4’.”

“Só lhe fiz um favor. Afinal, nada pode ser tudo por inteiro, como você mesmo diz. Nem mesmo o criador de algo tão intenso”, e virou-se, tentando sair do salão. Focou o olho no segurança que atentamente ouvia o que era contado.

“E que sirva de exemplo”, brincou.

O primeiro velho não poupou lágrimas voláteis. Puxou um esboço do bolso e rasgou. Compreendera.

“O senhor quer um remédio, está se sentindo bem?”, perguntou o segurança se aproximando.

“Não, não. O que eu quero aquele desgraçado me roubou também.”

“O que? Me diga e eu trago pro senhor.”

“Isso não pode ser trazido e somente conquistado. É a compreensão de “3/4″. A compreensão que nunca tive.”

O segurança olhou-o sem compreender. O primeiro velho deixou o salão.

“3/4” ficou ali. Parado, perfeitamente imperfeito, incompleto, compreendido pelas metades, interpretado com louvor por um velho ladrão reclamão de sonhos.

“3/4” não recebeu mais visitas de seu criador.

“3/4” era encarado como a peça que dera a ideia de um romance a um segurança louco qualquer.

Mas faltava ainda algo em “3/4”. Algo mais concreto.

Faltava um final perfeito para “3/4”. Talvez terminasse nele mesmo. Talvez além ou aquém.

O assombro de “3/4” nunca terminava.

E foi assim que acabou ali, na parede semi-nua de um museu qualquer.

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