– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

Nebulosa

ne.bu.lo.sa
sf (fem de nebuloso) 1 Cada uma das numerosas imensas massas de poeiras ou gases, altamente rarefeitos, no espaço interstelar da nossa Via-Láctea e de outras galáxias, que são observadas por sua absorção de luz de objetos mais afastados ou por sua reflexão ou reemissão de luz de estrelas associadas mais próximas. 2 Universo em formação. 3 Falta de nitidez ou clareza; confusão, nebulosidade. N. proto-solar, Cosm:nuvens de gases e poeira em rotação lenta, que deram origem ao sistema solar.

Com um pouco de dificuldade, ia girando as rodas da cadeira pelo corredor da casa. Parou no rumo da porta do quarto do filho, empurrou-a devagarzinho, esperando ver o vulto da criança coberto e uma atmosfera de inocência a acalmou um pouco. Não muito. Quis achar os cigarros, quis abrir o armário cheio de garrafas de uísque e conhaque; quis abrir a janela e pular.

Tentou.

A musculatura dos dois braços já estava se fortalecendo. As dores estavam presentes, mas Olívia as ignorava. Levantava bem cedo, antes do marido, que quando acordava via a a mulher já sentada na cadeira de frente com a penteadeira cantarolando uma música suave, como se tivesse ido parar lá magicamente.

Nada de mágica para Olívia. Tentava pular da cama pra cadeira, algumas manhãs caía. Custava se acomodar, a trocar a calcinha, a ir no banheiro mijar, a voltar, a pegar o vestido no guarda-roupa, a se trocar; mas se estacionava fielmente frente à penteadeira às sete e trinta da manhã, só pra que o marido a visse. Se acordasse alguns momentos antes, sentiria uma atmosfera nebulosa de ódio, insatisfação, tristeza e de violência que sucumbia a mulher.

Seus movimentos frente ao marido eram de uma leveza espetacular, como bruxa ou fada, erguia as coisas sem exibir esforço, sorria como uma criança em um parque e beijava o filho todo o tempo. Mas naquela noite, por pouco não conseguira bater os pés no chão de ódio. A única coisa que a impediu foi a falta de comando, porque a raiva que sentia, a faria bater os pés tão forte que acordaria os vizinhos do apartamento de baixo.

E foi em uma onda de autoflagelo que Olívia saiu pela casa afora, prendendo-se em um tapete ou outro. Bateu forte a porta da cristaleira ao tentar pegar um copo; derrubou o conhaque e o estilhaço fizera com que o marido lá dentro entrasse em alarde. Quis correr (e tentou, forçando ainda mais os braços pra girar as rodas) para a janela da cozinha e já não se poupou: Olívia gritava sem medo de sentir dor; não queria ser meiga, não queria sorrir, não queria beijar. Olívia queria uma faca no abdômen, um tiro embaixo do  queixo e duas mãos fortes no pescoço.

E foi assim que o marido a achou. Correu pra segurá-la firme e ganhou uma bela mordida. Estava transfigurada, possuída pelos demônios que mantinha guardada desde o acidente, pouco após o nascimento do filho. Nunca correria com ele em um pega-pega, e já não ousaria em posições na cama com o marido. Estava pra sempre estática.

O homem, chocado, quis saber o que acontecia. Perguntava o que era aquilo, e de onde aquilo surgira. Olívia apenas gritou mais uma vez: “Não quero saber, quero ir embora, correr desse mundo”, e o menino de pijamas aparecia espreitando a situação aterrorizado. O marido se aproximou, abraçou-a  forte e implorou pra que ela calasse a boca. Ela rebateu a pouco parte do corpo que controlava, mas sem sucesso acabou cedendo só em prantos. “O que foi isso, o que foi isso?”, perguntava o pobre coitado que se acostumara à Olívia penteadora de cabelos e cantarolante.

Olívia calada apenas pensava que no fundo, o marido não queria ouvir. Em um soluço, ergueu a cabeça, olhou no fundo dos olhos do marido e sorriu.

“Vamos dormir?”, ele perguntou já levantando e empurrando a cadeira rumo ao quarto do casal.

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Uma resposta

  1. As palavras fortes fazem o filme rodar na cabeça. Muito bom…

    25/05/2012 às 23:06

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