– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

Contos de todas as temporadas

Monólogo de um andarilho

“Duda tá com o braço quebrado de novo, porque Duda escorregou, caiu, Duda apanhou. Tem hora que é assim, Duda apanha, leva soco no olho e vai dormir inchada. Mulher gosta de apanhar; dó dorme sorrindo com olho inchado e dor no corpo, porque apanhou do macho. (…) Lorena apareceu com o braço quebrado mais uma vez. O Luiz não gosta da comida dela. O Pereira não gosta de curvas na roupa passada. Igual mainha; mainha tomava na cara e cortava a boca, escorria sangue. Com o braço quebrado, hematoma na coxa, mainha dorme sorrindo com um dos olhos mais fechado que o outro. De noite dá pra ouvir ela acordando assustada, com dor no braço e mente pra mim dizendo que foi porque dormiu em cima dele. (…) tem mulher que gosta de apanhar. Duda apareceu com o braço quebrado de novo na mercearia do seu Donato. Um dia aquele braço não sara e aí o Lobão vai ter que passar a quebrar o outro (…) Lorena tá com o olho inchado de novo, mainha viu. Tem o Gilberto (…) Joana, vizinha de mainha, faz um café muito bom e solta a língua melhor ainda; foi lá em casa falar com mainha e contar como perdeu outro dente; parece que o Seu Felício coleciona eles (…) depois dona Joana contou que Gilberto é viado (…) ele é bom, ele não bate, ele não deixa mulher com sorriso no canto da boca depois de apanhar do seu macho (…) Todo mundo sabe que mulher boa é mulher que apanha e faz café (…)

Mainha anteontem foi dormir sorrindo, antes de me abandonar, deixando de presente o seu segundo marido, Teófilo, que me deixa de olho inchado todo dia de manhã (…)”

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Nebulosa

ne.bu.lo.sa
sf (fem de nebuloso) 1 Cada uma das numerosas imensas massas de poeiras ou gases, altamente rarefeitos, no espaço interstelar da nossa Via-Láctea e de outras galáxias, que são observadas por sua absorção de luz de objetos mais afastados ou por sua reflexão ou reemissão de luz de estrelas associadas mais próximas. 2 Universo em formação. 3 Falta de nitidez ou clareza; confusão, nebulosidade. N. proto-solar, Cosm:nuvens de gases e poeira em rotação lenta, que deram origem ao sistema solar.

Com um pouco de dificuldade, ia girando as rodas da cadeira pelo corredor da casa. Parou no rumo da porta do quarto do filho, empurrou-a devagarzinho, esperando ver o vulto da criança coberto e uma atmosfera de inocência a acalmou um pouco. Não muito. Quis achar os cigarros, quis abrir o armário cheio de garrafas de uísque e conhaque; quis abrir a janela e pular.

Tentou.

A musculatura dos dois braços já estava se fortalecendo. As dores estavam presentes, mas Olívia as ignorava. Levantava bem cedo, antes do marido, que quando acordava via a a mulher já sentada na cadeira de frente com a penteadeira cantarolando uma música suave, como se tivesse ido parar lá magicamente.

Nada de mágica para Olívia. Tentava pular da cama pra cadeira, algumas manhãs caía. Custava se acomodar, a trocar a calcinha, a ir no banheiro mijar, a voltar, a pegar o vestido no guarda-roupa, a se trocar; mas se estacionava fielmente frente à penteadeira às sete e trinta da manhã, só pra que o marido a visse. Se acordasse alguns momentos antes, sentiria uma atmosfera nebulosa de ódio, insatisfação, tristeza e de violência que sucumbia a mulher.

Seus movimentos frente ao marido eram de uma leveza espetacular, como bruxa ou fada, erguia as coisas sem exibir esforço, sorria como uma criança em um parque e beijava o filho todo o tempo. Mas naquela noite, por pouco não conseguira bater os pés no chão de ódio. A única coisa que a impediu foi a falta de comando, porque a raiva que sentia, a faria bater os pés tão forte que acordaria os vizinhos do apartamento de baixo.

E foi em uma onda de autoflagelo que Olívia saiu pela casa afora, prendendo-se em um tapete ou outro. Bateu forte a porta da cristaleira ao tentar pegar um copo; derrubou o conhaque e o estilhaço fizera com que o marido lá dentro entrasse em alarde. Quis correr (e tentou, forçando ainda mais os braços pra girar as rodas) para a janela da cozinha e já não se poupou: Olívia gritava sem medo de sentir dor; não queria ser meiga, não queria sorrir, não queria beijar. Olívia queria uma faca no abdômen, um tiro embaixo do  queixo e duas mãos fortes no pescoço.

E foi assim que o marido a achou. Correu pra segurá-la firme e ganhou uma bela mordida. Estava transfigurada, possuída pelos demônios que mantinha guardada desde o acidente, pouco após o nascimento do filho. Nunca correria com ele em um pega-pega, e já não ousaria em posições na cama com o marido. Estava pra sempre estática.

O homem, chocado, quis saber o que acontecia. Perguntava o que era aquilo, e de onde aquilo surgira. Olívia apenas gritou mais uma vez: “Não quero saber, quero ir embora, correr desse mundo”, e o menino de pijamas aparecia espreitando a situação aterrorizado. O marido se aproximou, abraçou-a  forte e implorou pra que ela calasse a boca. Ela rebateu a pouco parte do corpo que controlava, mas sem sucesso acabou cedendo só em prantos. “O que foi isso, o que foi isso?”, perguntava o pobre coitado que se acostumara à Olívia penteadora de cabelos e cantarolante.

Olívia calada apenas pensava que no fundo, o marido não queria ouvir. Em um soluço, ergueu a cabeça, olhou no fundo dos olhos do marido e sorriu.

“Vamos dormir?”, ele perguntou já levantando e empurrando a cadeira rumo ao quarto do casal.


3/4

Era uma peça matreira e estranha. Seu metro e meio de altura surgia como uma profecia na maior parede do salão oficial de um museu monopolizador de almas geniais. Em cada obra uma energia se transportava como um fogo aceso, e a parede que antes se dependuravam europeias e latino-americanas obras, um raio nacional expirava morte e vida, aterrorizando o íntimo de quem a encarava.

Nas difíceis descrições que poderia se fazer de “3/4”, o maior problema seria de fato suportar lembrar de cada detalhe. Não que houvesse naquela pintura uma figura nojenta ou forte o bastante para estimular ânsias; tratava-se apenas do forte impacto que alguns símbolos comuns, nas cores e na iluminação correta poderiam provocar. E era assim que dificilmente alguém mantinha-se firme, fitando a peça. Por outro lado, se conseguisse analisar estrategicamente cada detalhe, hipnotizar-se-ia pela obra.

Um dos seguranças da ala principal do museu se sentia incomodado em permanecer frente à parede quase nua em que reinava a brutal peça. Mas resolveu fazer piadas: ninguém, exceto ele, permanecia muito tempo no salão. Como já dito, cada peça exalava uma energia poderosa que se somava. Apesar de “3/4” ficar sozinha no maior salão, as forças de outras obras poderiam ali se concentrar – ou por temer a deusa do salão, tentar de lá fugir. Era um jogo de espíritos, sensações e sons que o maldito museu conseguia estimular.

Seja o que fosse ali presente, semanalmente um velho senhor visitava a peça – ou o que ali habitava. Era um velho de sessenta e poucos anos, com óculos quadrados, com um início de calvície que não obtivera sucesso acima da testa.  Fitava “3/4” com intimidade, cada detalhe e quando se sentia repelido, focava-se na parede semi-nua do grande salão. Carregava consigo no bolso da calça um esboço amassado. E foi assim que um outro senhor o encontrou.

“Ouvi que vem sempre aqui”, brincou o recém-chegado. Um olhar ameaçador atravessou as lentes dos óculos até pousar como um raio nos olhos do outro. E “3/4” observava atentamente o que ocorria no grande salão. O segurança se mantinha firme, silencioso, tentando ouvir o que os velhos senhores diziam frente à aberração das tintas. Mas não conseguia.

“Amo-a com tudo que tenho. Mas a temo, como qualquer outro demônio. Um demônio forte”, disse o segundo senhor. O outro lançou o mesmo olhar acima descrito e comentou algo sobre assim ter de ser. Falou sobre o medo de perder a vida por uma aposta. Uma aposta mal cumprida e mal feita, que acabara sendo interpretada como roubo, que acabara nos casos policiais e terminara arquivada.

“E me batem na porta de minha casa, fazendo chacota, ralhando comigo, perguntando-me sobre você, infeliz, que brincou levando a obra”, disse o primeiro senhor colocando o esboço pra dentro do bolso.

Era uma cópia imperfeita. Nada se compararia à obra original.

E foi assim que os velhos iniciaram a desvendar “3/4”.

“Deveria parar de fazer esses desenhos. Uma hora você enloquece. Desista da peça; você não pode oferecer mais nada a ela”, lamentou o segundo senhor.

“Não há o que oferecer. A grande cruz branca e suja na iluminação radioativa ali sepultada já exibe a ausência de tempo. A ausência de respostas, de soluções…”

“Exibe o sacro sabor dos três quartos de corpo ligados por arames de ferro dourado. Ainda tenho a curiosidade de entender o porque de um braço esquerdo e duas pernas. Porque não outro braço?”

“Conhece alguém ou algo que seja inteiro? Mas eu digo isso de verdade. Inteiro. O todo. Conhece “um” e não apenas uma fração contínua de quase algo?”

“Me desculpe a crítica, mas até o corpo dessa pintura já foi inteiro um dia. Ele saiu inteiro em sua gênese.”

“Quer me fazer crer que sou o culpado pelo destroço? Olhe-me como o espaço em que isso foi gerado! Esse corpo jogado aos pés de dois traços cruzados!”

“Daí o meu medo talvez. Da mesma maneira que me lembra a Santa Inquisição cortando tudo, me lembra as encruzilhadas diabólicas da consumação humana”, o segundo velho respondeu, deu meia volta e observou que o segurança se aproximara mais e mais. Continuou: “A carne é branca e nem está suja de sangue como o chão.”

“Diga pele, não carne.”

“Lembre-se que foi meu nome que ela carregou.”

“Lembre-se que essa obra foi criada por mim.”

Silêncio. De minutos e mais.

“Acho graça nas cinzas, na fumaça, em um povo de joelhos ali, em volta dos pedaços de corpo.”

“Entenda, o corpo está armado como um boneco. Um boneco sem cabeça e sem o braço direito, é verdade, mas ricamente ligado por arames dourados que podem ser ouro. Ou apenas um brilho refletido pela iluminação de um sol azul qualquer.”

“É muita viagem.”

“Foi o seu nome que esteve ali no papel de criador.”

“Eram só as siglas. E acabei por inventar um leve romance em torno delas, considerando que as mesmas siglas são de um pintor famosissímo do século treze. Qual é mesmo o nome dele?”

O primeiro velho sentiu um aperto. De todos os tormentos que o segundo senhor poderia provocar, o fato de não ter dentro de si o reconhecimento da criação de “3/4” era o pior. Mas engolia tudo e respondia bradamente:

“Leia embaixo da obra. É lá que os grandes nomes ficam escritos” – ficou em silêncio. Retomou, “Romance, que romance?”

O outro soltou uma gargalhada e observou que o segurança se aproximava mais para ouvir. Respondeu:

“E foi assim que o romance se deu: certa vez encontrei um amigo de infância mexendo nos mistérios de um esboço qualquer que acabou dando em uma magnífica e genial obra. Tratavam-se de três pedaços de um corpo, três membros, dois deles pernas, um deles braço, e não havia cabeça ou qualquer coisa que a indicasse. Estava erguido por arames dourados por baixo de uma cruz que exibia crueldade faminta. E em torno, pequenos humanos se comportavam como súditos, cultuando a imagem. E a cruz brilhava, e eu sonhava com o maldito quadro.”

“Apostei que isso não aconteceria mais se você o encarasse.”

“Encarei e você perdeu a aposta. No meu direito o levei.”

“Endereçou a um idiota de título qualquer! Acabou por entregar na mão de colecionadores que acabaram tornando essa monstruosidade a mais divina arte do século!”

“E adiantou”, brincou ele. “Olhe bem. Você está velho. Depois de anos e anos, diriam ‘3/4’, mas nunca seu nome. As siglas soam mais forte.”

“Procuraram saber de quem era a obra. Você disse que era sua –  e eram as iniciais somente. Na contra-prova você mal esboçou um rosto. E caíram na gargalhada.”

“Procuraram meu velho amigo pintor, considerando-o um ladrão da arte do século treze. Não tentaram perícia no quadro. Acabaram por nomeá-lo doutro século.”

“E cá estou a temer o quadro que eu mesmo fiz. Como temer o que criei?”

“Não sei, meu querido. Mas saiba de algo: a criação não é só sua. Não seria tão genial se não guardasse uma história tão bonita.”

“E triste.”

“Mas nada é tudo por inteiro. É sempre uma pedaço, uma fração.”

“Plagiador de palavras.”

“Ladrão dos bons sonhos.”

O segurança ouvia mais atento e a tudo o que diziam. Temia que algo acontecesse, que os velhos se atacassem.

“Não seja bobo! Tem temido ‘3/4’ por anos, décadas e nem ao menos sabe explicar isso!”

“Um tormento qualquer.”

“Sei eu bem o que é um tormento. Você me tirou o direito de ser o pintor de ‘3/4’.”

“Só lhe fiz um favor. Afinal, nada pode ser tudo por inteiro, como você mesmo diz. Nem mesmo o criador de algo tão intenso”, e virou-se, tentando sair do salão. Focou o olho no segurança que atentamente ouvia o que era contado.

“E que sirva de exemplo”, brincou.

O primeiro velho não poupou lágrimas voláteis. Puxou um esboço do bolso e rasgou. Compreendera.

“O senhor quer um remédio, está se sentindo bem?”, perguntou o segurança se aproximando.

“Não, não. O que eu quero aquele desgraçado me roubou também.”

“O que? Me diga e eu trago pro senhor.”

“Isso não pode ser trazido e somente conquistado. É a compreensão de “3/4″. A compreensão que nunca tive.”

O segurança olhou-o sem compreender. O primeiro velho deixou o salão.

“3/4” ficou ali. Parado, perfeitamente imperfeito, incompleto, compreendido pelas metades, interpretado com louvor por um velho ladrão reclamão de sonhos.

“3/4” não recebeu mais visitas de seu criador.

“3/4” era encarado como a peça que dera a ideia de um romance a um segurança louco qualquer.

Mas faltava ainda algo em “3/4”. Algo mais concreto.

Faltava um final perfeito para “3/4”. Talvez terminasse nele mesmo. Talvez além ou aquém.

O assombro de “3/4” nunca terminava.

E foi assim que acabou ali, na parede semi-nua de um museu qualquer.


Os sinos

Creiam ou não, o que me fez realmente acordar foi o cheiro forte de bebida, cigarros e uma seringa que me incomodava embaixo do braço esquerdo. Olhei para as pobres criaturas fragilizadas pelo álcool, pelo sono e pela teimosia, uma espécie de amontoado humano de sensível inocência. Soltei um tossido, dormira sem camisa e as janelas da casa estavam abertas. Provavelmente o dono da casa estúpido – que nem sabia eu quem era – tinha aberto as janelas pra não ficar cheiro algum. “Fracassou nisso, amigo”, pensei sentindo o forte odor de gente suada, cerveja e outras coisas. A porta da sala estava trancada e eu não iria até a da cozinha. Pulei a janela, mas antes de saltar do parapeito observei de novo meus amigos dormindo. Ana não estava lá, tampouco meu amigo Rodrigo.

Caminhar na calçada me fez sentir bobo e tolo, um péssimo amigo. Há mais de uma semana eu não tinha notícias de Rodrigo. Eu o visitava no hospital todos os dias e passava horas lá, mesmo sem que ele dissesse ou abrisse os olhos. Mas já não suportava vê-lo naquela situação. Ele não levantaria mais, nunca abriria os olhos, isso eu podia sentir. E Ana, pobre Ana! Poderia eu estar com ela e dizer “tudo vai ficar bem, eu prometo”, mas isso não seria exatamente o melhor a se fazer. “Pensei em desligar os aparelhos”, disse ela. A proibi de ver Rodrigo no hospital até que ela melhorasse o próprio psicológico.

À porta de minha casa, às cinco da manhã, lá estava ela sentada no paralelepípedo com a cabeça entre as pernas e com o rosto marcado de lágrimas secas. “Seus pais me disseram que você foi ao aniversário da menina da medicina. Foi bom?”, perguntou ela com um sorriso escondido. “Ela foi muito boa”, respondi num sarcasmo. Chequei os pulsos dela, sem nenhuma gaze. Uma casca de machucado se formava numa linha reta em cada pulso. “Isso aí melhorou?”, perguntei. Ana não respondeu. Alguns minutos de silêncio se passaram e ela desatou um choro impulsivo. “O Rodrigo é um idiota. Ele se jogou dentro do carro, uma hora não ia dar certo…” – e eu a interrompi dizendo: “Nós todos somos idiotas. Tem a ver com nosso sangue a irresponsabilidade com essa carne. Ela serve pra duas coisas, dizer que somos bonitos e pra machucá-la, mais nada.”

Poderia eu dizer o que se passou por minha cabeça a cada minuto seguinte à minha última frase. Ana, aos sete anos, afogou-se na piscina da própria casa. A única coisa que a salvou foi seu pai com uma respiração boca-a-boca – incesto. Aos quatorze, tomou todos os anti-depressivos da mãe – algo de família. E aos dezoito, impulsiva e louca, cortou os pulsos depois de saber que o namorado estava em coma e que não passaria mais que três dias – e fui eu quem a encontrei jogada em cima da cama do Rodrigo quando fui buscar algumas coisas pra mãe dele.

“Você está fedendo, Max”, disse ela enquanto enxugava os olhos. Soltei uma risada. “Não sou muito religiosa, Max, mas há um lugar que sempre paro pra pensar em respirar um pouco.” Torci a boca para a direita – ela falava sobre a longa e alta Ponte Branca. “Gosto de ouvir barulho de sinos. Como se eles sentissem compaixão de mim. Hoje é domingo, dia de missa e… É a Ponte Branca. De cima dela dá pra ver a Igreja de São…” – e eu a interrompi: “Não importa de quem é, vamos estar lá na missa das sete. Mas vamos sair daqui agora. Vou te levar pra tomar um café.” E lá fui eu carregando aquele peso gelado e inano que era Ana. Sofrida, amargurada – e não estou falando de mim. Bonitinha, é verdade, e suicida. Pensei longe, como sempre, perguntando-me como Rodrigo tinha realmente beijado e dormido com ela.

No café, falamos bobagens sobre professores, sobre a festa da noite anterior que eu não me lembrava muito e sobre o beijo sem-graça da garota da medicina. “É ela beija muito estranho”, comentou Ana, alimentando minha imaginação.

“Vamos pra ponte e de lá vamos ver se temos os pecados perdoados. Pelo menos uns dez porcento hoje” brinquei.

Ana ficou olhando o mar. Virava a tornar para a cidade, no rumo da Igreja de São… São. Até me dizer que não devia ter ido até lá. “Venho aqui por causa da água. Tenho medo, desde de…” e eu só respondi “Eu sei Ana. Mas por que sempre te vejo aqui?” Ela olhou para baixo e disse que eu iria achá-la louca. Pensei em dizer que já achava, independente de tudo, mas resolvi deixar pra lá. “Venho aqui por que sinto medo. E esse medo me faz bem de alguma forma. Você e todos os outros sabem das vezes que eu quis fugir daqui, desse mundo. Mas… Quando eu sinto muito medo, praticamente no fim, quero sempre voltar atrás. Por isso sou grata pelos remédios coagulantes de sangue, pelas lavagens estomacais e pelo amor do Rodrigo” – e ela parou para respirar e pensar – “Pelo seu amor, pelo de todos os nossos amigos.”

Por mim ela já teria ido embora, há muito tempo; mas Rodrigo gostava realmente dela. E os outros também. Então, fiquei na minha, portando-me como deveria.

“Você é o melhor amigo do Rodrigo. Ele disse há muito tempo que não me perdoaria se eu tentasse… de novo. Acha que se ele acordar, vai me perdoar? Mesmo sabendo que foi por medo de perdê-lo?” Olhei-a assustado. Não respondi. Finalmente senti um pouco de compaixão dela. Ela foi arrastando o corpo pela grade da ponte que a impedia de pular de lá até acabar sentada no chão aos prantos. Sentei-me ao lado dela e abracei-a com força, tentando ampará-la. “Ele não vai acordar“, pensei comigo.

Meus sinos tocaram.

Se ele acordasse, a deixaria pra viver, finalmente depois de tentar evitar a morte dela por tantas vezes. Entretanto, isso eu não contei. Enfim, compaixão, meus caros, como senti das criaturas jogadas pela casa no meio do álcool, dos cigarros e outras coisas mais.


“Pára-choque”*

Abri a porta da sala e a mulher de cinquenta anos, cabelos pintados de vermelho à altura dos ombros e volumosos – arquitetados sob uma franja ridícula – me esperava sentada no sofá, assistindo o jornal. Seus olhos manchados de marrom, seus dentes já amarelos; tudo enxerguei à primeira vista ao entrar dentro de minha casa.

Cumprimentos. “Estou com uma dor nas costas hoje.” Ergui a cabeça como quem presta atenção, procurando uma brecha na entonação da voz de minha esposa para fugir pro quarto. Foi o que fiz. Nos corredores da casa, uma barulheira vinha do quarto de minha filha. Bati à porta do quarto de meu filho. “Tô dormindo, droga!”

Bem ou mal, trata-se de minha rotina. Tomo um banho rápido, leve, pra não pesar muito. Normalmente, Anita, a empregada horrorosa que minha esposa colocou no lugar duma gostosa que eu mesmo tinha contratado, já tem o jantar preparado. Basta eu aparecer na mesa cozinha e ela nos serve. O moleque sai com a cara amassada de dentro do quarto, com um forte mal hálito. Minha menina nem presta atenção; só come, come, come… Olha pedindo pra se retirar. “Mal educada!”, responde minha mulher depois da menina já estar pra lá dos corredores. Comento sobre o carro novo e minha satisfação. Minha mulher se mantém focada no próprio prato.

E é aí. “Vou ver a novela”, diz ela. “Tem uns caras aí me chamando, já volto”, diz o rapaz.

Garagem.

Dá vontade de nem participar mais do jantar. De correr pra garagem, olhar o carrão que mantenho guardado. Um pará-choque fantástico reforçado de aço. Uma cor neutra mesmo debaixo de luz. Libertação.

“Vou dar uma volta pela cidade”, proclamo rapidamente ao passar pela sala. Minha mulher está mais preocupada com alguma traição da ficção.

Pego o carro e procuro algum lugar longe, pra lá da classe média, pra lá do moleque de mau hálito, da menina egoísta, da mulher hipocondríaca, do meu eu fracassado.

Espero até as dez.

As ruas se esvaziam, crianças já não brincam mais esse horário. Nas periferias daqui, não se passa das nove na rua. Só se vê os passos rápidos de trabalhadores que descem dos ônibus correndo procurando a própria casa na esperança de dormir e no outro dia, antes do sol raiar, levantar pra trabalhar. É por aí que vejo gente de verdade.

Até que alguém mais frágil, numa sapatilha velha, numa saia pra baixo dos joelhos, alguém que segura firme os próprios braços contra o corpo na tentativa falível de vencer o frio da noite de garoa, tenta chegar em casa.

Não há ninguém nas ruas.

Faço as voltas necessárias para me manter no sentido em que possa contemplá-la de frente. Passo uma vez e fito-a com os olhos. Ela não pode ver-me. Os vidros escuros que insisto dizer “protetores contra o sol” a impedem disso no meio da noite. Dou a volta no quarteirão… Antes de me virar na rua em que ela está, apago os faróis, diminuo o barulho, não acelero. A inércia toma conta do veículo que desce a leve inclinação da rua, a perspicaz libertação… Viro.

Devargazinho pego o movimento ladeira abaixo. A mulher olha pro chão com passos rápidos. Nem repara em mim. E acelero. Ela só se dá conta do quão perto estamos – eu e meu carro – quando as borrachas dos pneus sobem na calçada. O pára-choque mais caro do mercado bate de frente na altura dos joelhos. Do volante consigo sentir dois ossões se quebrando. Ouço um grito desesperado. Ela voa longe. Êxtase total.

Acelero dali. Dou mais algumas voltas na cidade, encho o tanque bem longe, volto pra casa. Na garagem, olho o pára-choque. Liso! Certos consumos são investimentos de lazer. Entro pra casa, minha mulher está intrigada com o enredo dramático de um filme na TV. Ouço o teclar do computador vindo do quarto de meu filho, uma briga de namorados adolescentes ao telefone de minha menina. Vou pra cama. Hora de dormir tranquilo e conformado com a vida que levo.

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*BASEADO EM UMA CRÔNICA DE RUBEM FONSECA


A mentira das pedras

Maria Aurora tinha espalhado cartazes nos postes, paredes e nas línguas das mulheres da cidade. Uma amiga veio dizer que a tal o ajudaria a entender. Entender o que ele ainda não sabia, mas não teimou em ir. Se valesse uma noite de sono, atenderia ao pedido sincero da colega.

Fugiu do trabalho depois do almoço e se deitou no sofá pra dar um cochilo. Maria Aurora o atenderia às quatro da tarde. Em vão permaneceu suando de olhos fechados. Ficou um pouco irritado, correu pro chuveiro e decidiu pegar as chaves do carro. Disseram-lhe que a mulher era muito requisitada por pessoas de toda a região. Se ele conseguira uma hora com ela, ele deveria visitá-la e não se atrasar, pois uma hora com Maria Aurora era uma hora de libertação e compreensão da vida.

Não era fã das filosofias populares, das mulheres cheias de drama. Essas deviam concorrer por vagas em teatros e televisão – talvez até novela de rádio – mas não tentar bancar a sabichona das conspirações do universo.

Entrou descrente na casa onde Maria Aurora atendia seus fregueses. Pensara uma coisa, mas se enganou, não era coisa de mulher. Tinha muito macho lá. Não perguntou nada a respeito do que faziam ali, mas dois começaram a conversar e expuseram a própria situação. Um falou que estava ali pelos negócios, o outro porque a namorada morrera e queria um contato espiritual. E se sentiu um idiota por estar ali. Ele não ligava pro futuro, não ligava pra essas mulheres que vão e vêm; só ligava pro próprio sono. Então, por que diabos ele não procurara um médico pra isso?

Uma assistente de Maria Aurora convidou-o a entrar. Havia pedras dessas que se acham na rua sobre a mesa de trabalho da velha – sim, Aurora era uma mulher velha e não uma quarentona que tentara ser perua e fracassara. O esperava sentada numa velha cadeira de plástico trançado e o olhou tão profundamente que fez com que o rapaz se sentisse nu. Permaneceu em silêncio e ela iniciou.

“Fale-me sobre seus sonhos, garotinho”. Seus olhos se arregalaram. Como aquele demônio enrugado sabia sobre seus sonhos? Acreditou ter sido tiro de sorte e cogitou até mesmo que a colega contara à velha sobre as coisas pelas quais tinha passado.

“Tenho um sonho”, e acomodou-se melhor na cadeira. “Desses que nos faz pular da cama, que faz com que sintamos uma gota gelada correr pelas costas quentes. Há um garoto sentado. Ele está brincando com um baralho de cartas e um senhor já de idade está sentado num poltrona o observando.”

Maria Aurora sacudiu a cabeça e jogou as pedrinhas sobre a mesa.

“Não quer falar sobre os relógios?”

O rapaz expressou terror e engasgou. “Relógios?”, perguntou tímido. A mulher nada respondeu. Abaixou a cabeça, pigarreou e terminou: “Há relógios sim. Muitos deles sobre as paredes de madeira. Cuckoos eu acho.”

A velha franziu a testa, bateu as palmas das mãos sobre a mesa. O rapaz se manteve de cabeça baixa.

“Olha”, começou, “acredito que você queira entender isso. Há uma lógica. Hoje, por exemplo, progredimos muito em pouco tempo; digo o que acho. Você entende e se vai e ponto. Se precisar vemos uma consulta. Mas isso você vê com a assistente”, em um tom de voz até ensurdecedor. “Procure a Suzana, Suzana cuidará de você.”

Balançou a cabeça, olhou para baixo e não ousou erguer-se por mais de dez segundos.

“E sobre meu sonho?”

Maria Aurora ergueu a cabeça em ar de superioridade e bradou feliz:

“Você é o menino e o velho. Você nasceu e você morrerá. Não que isso seja novidade, não é mesmo?”, falou tentando brincar para descontrair. O rapaz não respondeu com um sorriso. “Enfim”, voltou ela séria ao exercício de seu trabalho, “você chegará à terceira idade. Terá uma vida longa e no trajeto dela se lembrará da sua infância. As coisas que você fazia serão o guia do que deve ser feito agora e…”, a velha olhou o relógio e viu que não dava mais tempo. Marcara uma consulta meia hora antes do que devia. Avisou o rapaz, mas este nem se importou. Lembrara-se do que fazia quando era criança e tinha medo do escuro. De quando não conseguia dormir.

“Dê o dinheiro à Suzana”, falou Maria Aurora praticamente o expulsando do consultório. Saiu procurando pela moça que o puxou pelo braço. O fez assinar um termo de responsabilidade, a pegar o dinheiro, cobrou uma taxa pelo café que nem bebera – mas que Suzana deixou claro que se quisesse o tinha disponível – e tentou dar adeus. A moça o pegou pelo braço e falou:

“Moço, cuidado na rua. Sua próxima consulta está marcada. Mas sinto que você não vai vir. Talvez não precise mais, não é mesmo? Mas nunca se esqueça de madame Maria Aurora.”

Sentiu uma paz dentro do peito e manifestou a vontade de ter com a mulher de novo, só pra explorar mais a vida. Tentou se lembrar de mais coisas que fazia quando criança. Pulou uma amarelinha imaginária na calçada, fez de conta que trazia um carrinho em suas mãos e brincou no paralelepípedo.

Desequilibrou-se e caiu no asfalto. Quando tentou levantar-se, um carro se chocou contra ele, o fazendo voar praticamente de volta pro passeio de Maria Aurora. O motorista acelerou e fugiu. O rapaz ficou olhando pro alto, pro alto, esperando que alguma mãe o viesse socorrer. Era o que teria feito como criança.

Por fim, desequilibrou-se no paralelepípedo e nunca, nunca, mais voltou a viver. Nem mesmo pra conhecer sua terceira idade ou contar ponteiros dos relógios que anunciavam não haver mais tempo.


Os vizinhos do 310

O calendário mantinha sua corrida desembestada e eu me desesperava com cada cavalgada que os malditos cavalos dos ponteiros davam. Não dormia bem há dias, já não comia direito e pra terminar minha vizinha do 310 continuava a me tirar do foco. Ouvia os gritos da pobrezinha que vinham do apartamento de cima. Às vezes, sentia que algum animal a erguia no alto e a jogava com toda a força contra o chão, o que me fazia crer que ela acabaria quebrando o teto e caindo em cima do meu computador, destruindo todo o trabalho que eu tinha tido no último ano com minha tese.

Diariamente, assiduamente às sete da noite; a vizinha de quarenta e poucos anos começava sua ópera desafinada de choros, palavrões e gritos em resposta às agressões do animal que não conseguira domesticar em vinte anos de casamento. Nessa hora, eu tentava me esgueirar na minha sacada, olhando pra cima, caçando algum punho no ar, alguma cabeça rolando ou até o corpo da coitada sendo lançada sobre o asfalto quente do fim da tarde. Mas meus vizinhos tinham instalado uma grade trançada em largos vãos que impediam qualquer ser com mais de dez centímetros se lançar lá de cima.

O máximo que eu conseguia ver era a grade sendo estufada, como se estivesse pronta para explodir enquanto o marido da vizinha segurava firme o pescoço dela e a erguia, comprimindo-a contra a grade, arrastando por alguns minutos os gritos contidos.

Minhas apostas eram que eu sempre estava ouvindo a  última surra. Me incomodavam os palavrões criativos que eram ditos na harmonia da briga. Cortavam meu raciocínio, me faziam perder as páginas que eu usava como bibliografias. Eu misturava o nome dos autores que eu usava como referências até que um dia eu percebi que o casal brigava a mais de um dia seguido, com pausas leves de somente choro e quebra de móveis.

Eu estava praticamente terminando a tese. Faltavam apenas alguns parágrafos. Mas já estavam gritando tanto que não resisti entrar no elevador e subir até o apartamento 310. Bati à porta e ouvi o homem mandá-la parar de chorar. Soltou um palavrão enquanto girava a maçaneta para abrir a porta, reclamando da hora.

“Estou tentando estudar. Podem brigar enquanto eu estiver fora?”

Acho que foi a primeira vez que vi a mulher. Estava como um pano de fundo pregado ao fundo da fresta da porta que o desgraçado tinha aberto. O filho da mãe bateu a porta e voltei pro meu apartamento. Sei que ele a mandou ir pra sacada, obrigou-a a se sentar no chão, no cantinho. Sutilmente me coloquei abaixo da sacada dos meus vizinhos de cima e comecei a ouvir os chutes violentos que o desgraçado dava na pobre mulher. Pude senti-la colocando a cabeça entre os joelhos, tentando privar o pouco de sanidade que lhe restara dentro de sua mente.

Olhei para o telefone pela porta transparente da sacada. Pensei em ligar pra polícia. Mas eu teria perda de tempo a fazer o boletim de ocorrência, servir de testemunha, quem sabe até dar depoimento. Eu não tinha tempo pra isso e tão violento estava o aproximar da data de entrega da minha tese quanto a surra que a mulher levava lá em cima. Entrei para dentro, fechei a porta para abafar o choro e me sentei à mesa cheia de livros espalhados. Adormeci.

Quase sete da manhã, a vizinha bateu à minha porta.

“Me desculpe por ontem”.

Somente assenti. Notei o rosto machucado, as canelas e os braços cheios de hematomas. Uma pena extrema se despertou em mim e, então, olhei para baixo fixamente esperando que ela se despedisse.

Na hora do almoço, minha tese tinha progredido. Faltava o último parágrafo da conclusão. Fui pra sacada descansar a mente um pouco, olhar a paisagem fatigada da vizinhança quando ouvi um grito que era dado fora de hora. O homem reclamava da comida.

Eu nunca fazia almoço, só comprava comida. Se eu soubesse que o filho da mãe ia jogar o prato dele cheio de comida além das grades, tinha me preparado. Teria aberto a boca pra cima esperando um pouco de comida caseira cair na minha boca. Mas eu já a tinha perdido pro asfalto lá embaixo.

E a briga se estendeu. O último parágrafo da minha tese travou. Fiquei tão irado pelo calor, pela briga que fui até a sacada e gritei mandando eles pararem. O desgraçado me xingou de alguma coisa, mas achei ter ouvido a mulher pedindo minha ajuda. Olhei para o telefone.

“Vou chamar a polícia”. Entre para dentro e olhei minhas coisas espalhadas. Me senti um idiota pelo pensamento anterior. “Tenho que cuidar das minhas coisas! Eu ainda tenho uma última coisa pra fazer. Termino minha conclusão e depois, só depois, ligo para a polícia”.

Voltei para a sacada, gritei um palavrão como resposta. Voltei para dentro, fechei a porta, liguei o som. A data de entrega da minha tese está próxima demais pra eu me preocupar com a minha péssima vizinhança.


Soldadinhos de Chumbo

“‘bang, bang!’
põe o chapéu, menino
e água nessa pistola
brinca direito, sem palavrão,
mas faz o favor de não se molhar”

A esperança de estar fora daquele lugar em alguns dias era presente a todo instante, apesar de segundos de incredulidade pelos quais eu rapidamente passava. Um arrepio tomava conta de mim nas mais opostas situações: na barraca, na mesa improvisada, no movimento de continência e numa simples cerca de arame farpado – que em especial me descontrolava, pois era o que nos mantinha longe do controle de nossas vidas.

Se a guerra é uma arte, a identifico como a da manipulação em que não há nada exatamente a se perder. Afinal, se a vida é o bem mais precioso e é desperdiçado em todos os cantos dela, não devo bem-dizer sobre a mesma. Mas considero que essa não é uma questão a se tratar em conjunto: cada um por si sob a falsa imagem de amor patriótico e luta coletiva em prol de um bem maior configurado num sintoma de fraternidade identificada.

Desses irmãos, alguns foram protegidos por cercas e acampamentos bem montados sob as florestas densas. Para que não chamássemos atenção uma pequena fogueira. E um dos irmãos, um Tenente, meu Senhor – e apossado do meu destino – me convidou a conversar. Não recusei apesar do cansaço que teimava cair sobre meus músculos já tão rígidos.

Esperei minutos do lado de fora da cabana, esperando-o e um subordinado que eu conhecera no Colégio Militar me avisou que eu podia entrar. Respondi com um sorriso, mas não obtive qualquer outro sinal amistoso. A situação estava explosiva e nenhum bom homem ou amigo de infância ou de guerra deveria se preocupar com o outro se fosse possível a ele sair dali.

Como um bom soldado, não demonstrava o cansaço sobre os meus olhos e senti parte da admiração de meu senhor. Uma missão de sucesso rende bons frutos ao longo de uma guerra. “Obrigado, meu rapaz, a cada vitória me sinto mais perto do fim deste inferno”, falou para mim. Avisei em estado de continência que eu só havia feito o meu trabalho diante do país. Ele apenas sorriu. Sabia tanto quanto eu que meu objetivo era o de sumir dali.

Começou a falar sobre a próxima missão e mostrou-me uma prancheta rabiscada de giz, revelando a mim a liderança da ação. Perguntou minha opinião e busquei não encontrar um defeito, mas meus sentidos me levaram a uma pequenina falha que se referia ao tempo, tal coisa que se resolveria retirando uma dezena de homens de um determinado lado. Observei da região que se tratava e expressei erroneamente surpresa quando vi casas de civis e orfanatos. O Tenente apenas sorriu, ainda pensando sobre minha primeira percepção e apagou alguma coisa com o punho cerrado anotou o que eu falara, ignorando o segundo ponto. “Se der certo, prometo que você volta pra casa em menos de uma semana”. Meus olhos quiseram pular de lágrimas, comoção e até me permiti cogitar abraços, mas rigidamente respondi com um baixo obrigado e assenti com a cabeça num gesto robótico.

Notando um desespero contido o homem tocou-me nos ombros e falou como se estivera na rádio de um governo em crise, no entanto, sem as conotações devidas: “A situação de um soldado fora de seu país é difícil e devemos deixar claro para nós mesmos que nesse conflito importam apenas nossos interesses e nosso povo. Amor à pátria. Defenderemos com nossas vidas, mas para isso lutaremos, nem que isso signifique tirar a dos outros. Todos. Não poupe ninguém e então teremos intimidado nosso adversário. E o mais importante, você estará em sua casa livre para cuidar da sua vida.”

Apesar de gelar por dentro, eu sabia que todo o flagelo que eu provocaria e passaria seria necessário. Como cidadão, patriota, como alguém que tivera que colocar interesses particulares em segundo plano para que alguém se beneficiasse com o sofrimento alheio.

Deveria eu executar com sucesso e permitir que pelo menos uma vez um narcisismo tomasse conta de mim. Respondi ao homem que eu já entendera e simplesmente saí da cabana, meio zonzo procurando minha barraca. Meu companheiro estava de olhos fechados e não dei muita importância a isso, apenas o invejando por conseguir dormir, até que ele virou-se para mim, depois de eu já ter me deitado, perguntando: “o homem já te contou o que vamos fazer?” Respondi que sim. “E as crianças? Teria coragem?” Não havia outra resposta. “E se falharmos em um primeiro momento? Se nos notarem aproximando? O orfanato, se alguma criança estiver fora da cama e simplesmente perguntar quem somos?”, já dizia soluçando.

Silenciei-me por segundos. Uma lágrima correu no meu rosto. Respondi secamente: “diga que somos brinquedos de outra criança. Diga que somos soldadinhos de chumbo.”


Raquel

Raquel era um jogo de quebra-cabeça com que eu insistia jogar. Tinha o cabelo um pouco abaixo dos ombros, uma franja acima das sobrancelhas, um sorriso de dentes largos e olho tímido entre as têmporas e o volume de suas maçãs. Até então eu não conseguia vivenciar sem Raquel, comer sem Raquel, trabalhar sem Raquel. Comparar as mulheres que se insinuavam automaticamente no rebolado do caminhar pelas calçadas com Raquel; beijar-lhe as maçãs, a boca, os olhos, beijar Raquel.

Deixei-me tanto levar que agarrei a um dedo de minha mão esquerda o protótipo, o resumo do que Raquel fizera comigo: seu nome era oculto entre a aliança dourada e a pele do meu dedo. Eu fugia do trabalho para vê-la, gastava o dinheiro da cerveja com flores em nome de Raquel.

Nem cogitara analisar Raquel por partes. Raquel era pra ser vista inteira, de cima. Raquel era o tipo de paisagem que se olha de longe. É muito perigoso pra perto ficar ou ousar de muito perto olhar.

Essa era Raquel, essa coisa boa de ver de cima. Não aquele vale seco jogado em cima da minha cama cheio de hematomas. Despedi-me do pai dela, que apoiara as mãos em mim, tocara meu rosto agradecido, beijou-me até a testa deixando claro que aquilo que eu fazia era demais. Abaixei a cabeça, aceitando os elogios, firme na idéia de que eu matinha em meu rosto uma pele estática que demonstrava força e destreza para atravessar qualquer problema. Mas não com Raquel. Raquel dos extremos. A Raquel que da mais bela paisagem se tornara o registro mais duro das intempéries.

No nosso frio apartamento, Raquel sobre a cama dormindo em uma expressão feliz – retornara pra casa após meses internada. Uma maquiagem meio borrada que sua irmã lhe fizera antes de sair do hospital caracterizava seus olhos de pálpebras opacas. Ao canto do quarto uma mesa que antes tinha nossos retratos, mas agora trazia entre eles caixas de remédios. Duro de ver junto à imagem do vale seco de Raquel foi aquela haste mecânica que cismava em imitar os contornos humanos e fracassava como uma parte de Raquel. Meu quebra-cabeça perdera as peças. Já não dava mais pra jogá-lo.

Antes, enquanto a família de Raquel engrandecia meu nome dizendo o quanto eu amava ela, eu simplesmente me xingava a todo o momento rasgando a pele que vinha sobre meu rosto. Eu já condenava meus pensamentos, minhas expressões, já condenava Raquel. Por vezes minha vontade foi a de lançar aquela perna mecânica da sacada em cima dos carros desgraçados que passavam sem parar tirando meu sono – a eles eu culpava. Mas me vinha à mente aquele bolo de carne cuspida à terra que se destacava na ponta do toco que restara numa das extremidades de Raquel. A única maneira de não olhar para aquilo era deixando a haste ficar lá por mais dias, até um outro que eu pense em jogá-la fora, em sufocar Raquel, destruir meu quebra-cabeça ou simplesmente deixá-lo num canto, pois já se trata de algo que não posso jogar.

Raquel nunca mais seria sensual. Nunca mais seria minha mulher, seria somente aquele nome rasgado na minha aliança. Raquel já não servia mais de comparação às outras mulheres que podiam caminhar vivamente pelas calçadas da cidade. Raquel já não era mulher. Raquel já era gelada e sem vida.

E permaneceu assim. E eu também.


Todos os brilhos dos meus olhos

“Quando te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho”

CAETANO VELOSO

Negros até o fundo, até a alma. Pois bem. O reflexo do abismo negro dos meus olhos no espelho me contagiava. Um círculo ao todo opaco, mas com um brilho, uma ponta de brilho metálico no extremo fundo. Não, não é a luz do fim do túnel. Na verdade, é o início dos problemas. É uma espécie de dádiva que abre caminho do interior dos meus globos até chegar aos olhos dos outros. É a prova prática da superioridade da imensidão que provoco.

A teoria é a de que qualquer ponta de reflexo faminto deles mesmos me entorpeça. Isso explica todas as minhas observações profundas, minhas atenções aos outros, minhas anotações mentais. Uma expressão brava disfarçada pela busca da ponta metálica no interior dos olhos dos outros. Provérbio: “os olhos são as janelas da alma”. É de um determinismo que me provoca ânsias. A alma é muito pouco reparada a essas “janelas” maravilhosas.

As buscas mais cintilantes as quais me proponho são frutos de uma verdadeira curiosidade em descobrir olhos tão efetivos quanto os meus. Uso deles como um instrumento pra colocar qualquer outro olhar à prova. São como uma britadeira. Penetrantes ao fundo. Normalmente, semanas não são necessárias para que eu possa prever as ações dos outros. Sempre posso: normalmente, as pessoas não conseguem esconder os olhos. Precisam deles para tudo. Para caçar mesas vazias, inclusive.

Numa das minhas aventuras, uma moça de rosto claro, cabelos encaracolados em um loiro escuro, e os olhos, os olhos! Até o seu branco não era comum; branco leitoso e violento como uma nevasca me impediu de chegar à sua íris no primeiro dia que a vi. Estava sentado no interior de um auditório onde aconteceria uma palestra sobre alguma área da psicologia humana – deveras interessante; interessante lugar para se encontrar pessoas de olhar profundo – quando ela chegou procurando um assento. Não observei o que trazia na mão esquerda, mas com a direita segurava firme uma bolsa – posso jurar que estava vazia. Tive um trabalho fenomenal até conseguir chegar aos desenhos dos seus olhos. Primeiro porque seu rosto era emoldurado por seus cabelos, verdadeiras colunas, como as do Vaticano, que se apoiavam na cintura e lhe subiam. Através dum corte reto e duro, eram a moldura de um rosto épico. A pele branca, pálida e morta despertava em mim o desejo de vê-la ao todo, em todos os confins do corpo, nas curvas das coxas, nos desenhos da cintura, nas costas – que pensei ser como um deserto de neve.

Até então, eu nunca perdera tempo observando o resto. Os olhos sempre foram o foco, mas eu fora impedido de chegar até eles. Talvez a beleza que se realçava em mim fosse tão singular nos olhos que me pareceu gigante o exagero dos elementos que compunham a figura da moça. Ela se sentou três fileiras à minha frente. Quando fui embora, ela ainda mantinha a cabeça baixa e a franja comprida me impedia de notar o desenho dos seus olhos. Voltei pra casa instigado; o que acontecera comigo não me permitiu penetrar nos olhos dela, de estar com ela. Eu queria vê-la de novo. Não dormi.

A semana de palestras se seguiu. Ela chegou atrasada em duas palestras, desapareceu nos intervalos. Na última do evento, ela chegou à tempo, ainda perdida, sem saber onde se sentar. Foquei-me gritando dentro de mim “olhos, olhos, olhos!” e foi aí que ela virou-se pra lá, pra cá e sentou-se. Minha britadeira ótica não tinha nem mesmo cavado meio centímetro da profundeza do abismo dela.

Passei toda a palestra lá sentado, querendo vê-la se levantar para ir ao banheiro, beber água, mas os minutos passavam e ela continuava imóvel como uma pintura na moldura. Até que ela se preparou para ir.

Um desespero tomou conta de mim, precisava olhá-la nos olhos, penetrar a imagem gélida daquela figura tão excitante e assustadora que se sepultava em neve a todo o segundo. E então, levantei-me automaticamente, por impulso, ultrapassei as fileiras, incomodei os ouvintes e, quando me dei conta, estava eu à sua frente, tocando-lhe com o dedo indicador o seu queixo, erguendo-o até que finalmente eu pudesse saltar no abismo dos olhos dela.

Louco, louca. Ela nem se assustou com um estranho lhe erguendo o rosto. Eu a olhava nos olhos. E foi aí que dei um pulo pra trás, assustado. Poucos segundos cavei cada milímetro da íris, da pupila e me perdi por centenas de anos num mar de tristeza e angústia que não posso falar. Era muita coisa pra olhos que supostamente eram tão jovens. E, incrivelmente, ela fazia mesma penetração dentro dos meus olhos. O par de olhos se tratava de um universo pré-histórico escuro.

As imagens dos seus olhos não me deixariam nunca mais em paz. Respondi que a confundira com um estranho. O que posso dizer? Tenho medo dos olhos, dos olhos dos outros, da pupila dilatada, contraída, da loucura do abismo dos olhos tão opacos quanto os meus como os daquela moça.