– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

Loaded gun

|resenhadumsoluço|

pudera eu quebrar meus versos quebrar os braços da minha voz apertar correntes gritar de dor passar frio comigo a sós tremer de febre clamar pavor correr alterno dando nós ficar eu velho limpar meus lastros chamar meus entes pedir contato rasgar-me em apego rasgar meu verso dizer façanhas conquistar feridas limpar minha garganta gritando pedindo clamando tremendo nas minhas voltas insensatas que dou sobre mim mesmo

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Lira,

Tenho certeza que vai me censurar. Vai me chamar de covarde, morder a boca enquanto lê esta carta. Vai colocar as pernas em cima do sofá e, quando terminar de ler, disfarçar uma lágrima. Jogar esse texto no chão e correr pra sacada só de sutiã e calcinha com um cigarro na boca com sua cara pervertida de poucos amigos.


O paraíso das soleiras

Os pés sentem. Calçados ou não. É a textura de onde pisamos que nos avisa de antemão onde estamos, como estamos, se a situação está molhada, barrenta, cheia de poeira ou qualquer coisa do tipo. Olham pra baixo na expectativa de entender o tamanho do estrago refletido na sola dos sapatos.

E o chão, todo recluso em si mesmo, só se destaca nas desgraças. E se o chão estiver limpo, também refletirá a desgraça de daqui alguns minutos começar a ser sujo, por um fio de cabelo, pela pegada do cachorro, pela bola do vizinho que atravessou o jardim e entrou pela porta da sala.

Caso ver toda a expansão concreta subindo com bastante terra e pedras ou descendo, o alarido dos corações chama pelos pés, e, então, seres humanos deslizam o caminho delicioso da loucura – paranóia – da lembrança da capacidade de correr.

Mas há o meio termo. Sempre há. E resgata-se aqui, portanto, o meio termo do chão. A lembrança que surge sem pensar se o chão está limpo ou não, se está firme ou não. O meio termo está naquilo que separa a expansão concreta onde se firma como uma rocha os bens.

Pois bem, fala-se, aqui, da soleira, desse pedaço de pedra/madeira que divide o chão e nos trás a expectativa de atravessarmos o espaço. Ela funciona como um portal que nos leva à uma dimensão paralela.

Não é surpresa sentir-se desorientado num casa que não tem soleiras nas portas. Os passos que atravessarão os diferentes espaços não serão tão firmes, nem seguros, porque quando está sem nada disso, passa-se o pé na divisa da porta, devagarinho. É verdade que na soleira terá a energia do ambiente. Então aquela linha de cimento e rejunto que separa a soleira do chão, o portal do espaço, a corda dos pesadelos cheios de expectativas é que vai lhe fazer pisar firme e sem-graça.

Entretanto não se engane. A soleira da porta pode mentir, fazer-lhe cair. A qualidade do portal nem sempre garante o chão que se vai pisar.


[Devastando corações]

Tão falando coisas por aí sobre o amor. Inventando histórias que “achavam” durar para sempre. E eu estou aqui assistindo do camarote da avenida principal do meu coração gelado. Rindo deles por uma única vez acreditar nisso.

_Amor existe, Caetano?

_Não me chamo Caetano.

_Mas o amor existe?

_Vá te catar, maluco!

 


se for à brincadeira de roda,

me leva, me bica, brinca, me beija, me lembra
e me assiste, meu bem, me assiste,
vem ver de perto a minha queda
e o meu choro pelos joelhos machucados
culpa da roda, da roda
que gira, embala,
que me esnoba, me expulsa pra fora
do eixo da própria roda


solitude,

prometo guardar para você um jantar à luz de velas, um bom vinho e uma conversa histérica sobre a morte e sobre a vontade de ficar a sós com você.


Fita K7

Come are dead and some are living in my life I’ve loved them all (…) ABCDE (…) aí o mocinho falou pra mocinha que tinha guardado um anel e um pião que daria pra ela quando completassem o giro da vida (…) o céu é um véu claro e tão doce quanto as águas do banho, banho, banho (…) coração e pão (…) sei contar de um a cem: 1, 2, 3 (…) São três horas da manhã e acordei. Engraçado porque estou tão cansado (…) Ah! (…) e tudo não passou de raciocínio ilógico (…) Autista! (…) vou escrever um relato de um lobo vermelho que caminha por um deserto prateado (…) e pra quem tem mente forte, basta se lembrar do fim desta frase (…) plantar árvores, escrever livros e ter filhos, ô vidinha! (…) can you read my mind? (…) solitude (…) eu ainda não aprendi a cantar (…)  minha fita tá acabando (…) essa daqui tá estragada (…)”

Pobre papel

E tantas foram as palavras que se seguiram. O papel enegreceu-se sem medo com a tinta desenhada por minuciosos movimentos de uma mão desesperada. A segurança do autor das palavras variava o tamanho das letras. A pressão sobre o pobre papel transtornava emoção e alguns ruídos recheados de prantos mergulhavam toda fina densidade sobre a finita folha que outrora fora branca.
O autor poupou a última linha da folha. Apoiou-se sobre a cadeira como se descansasse as costas e suspirou. Sentiu-se em paz e sem cansaço. Explodiu um mundo de idéias que por horas lhe pesara às costas. Fechou os olhos e os apertou. Hora de dormir. Em paz consigo e com as idéias. E com as palavras.
E o próprio papel que se dane com as idéias. Isso é problema dele agora.


Réplica

Fita. Linha. Amassada. Íntima. Torta, torta. Ínfima. Ridicularizada. Vida.