– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

Mal do século

ERA

seu nome era Era
atravessava a rua correndo
jogava as sandálias no chão do quarto
enquanto deitada na cama,
de pernas pra cima,
agonizava de dor no pé

a verdade era que Era não dormia
passava quartos de horas
nas camas dos sonhos
que pareciam despencar do teto
do pequeno quarto de Era

três fios de cabelo arqueavam
contra o olho esquerdo, mas Era…
era uma vez que não se importava
seu nome era

ia ao supermercado particular:
garrafa d’água, ovo, margarina, pé-de-alface
era neles que se degustava
e deixava o melhor era pro fim:
era nas pedras de gelo que encontrava paz
na língua dormente, pesada

e ia arrastada para o chuveiro,
mas Era não arriscava  se manchar
no espelho já manchado
e se lançava no meio da corrente fina
como a da água da pia da sua cozinha
não da cozinha de Era

a cor do pé-de-Era desnutrido
se misturava ao chão-de-Era-do-banheiro
e ia lavando a cabeça com a pedra feita de sabão
era uma vez uma espuma que caía nos olhos
e sofrida batia as costas no registro do chuveiro
aquela Era sofrida, agonizante…

ainda sim Era, seu nome era
e descia devagar, friccionando as costas na parede
nua manchava o chão-de-Era-do-banheiro
era pra cama que Era de olhos vermelhos
e descontrolada seguia
molhada da Era-do-sofrimento-do-banheiro
mas lá não dormiu

seu nome era Era e fatigou, sim
a noite toda, uma geração talvez
cheia de calos nos pés dos olhos vermelhos
era de uma agonia pra outra que seguia
nessa Era de atravessar ruas correndo
como era aquele que só queria não chegar

do outro lado, em outra Era,
num era outra vez qualquer


Pregação

Trombeta de ponteiros anuncia,
bola de fogo suspensa sobre
descamisados que insistem na trilha
ingrata sobre duas rodas.
Enquanto outros sobem à laje
e pairam sobre a falta de arte:
na própria realidade, ao observar
a própria sorte, nos telhados de lona,
nas portas de caibros, no tecido frio;
o próprio desalinho natural.

Portas de aço são erguidas;
carros acelerados, sinal aberto:
– Vai, filho da mãe! – anuncia
o motoqueiro que costura de mau
jeito os carros populares da cidade.
Histórias de manchete fatalmente esquecidas
servem ninar ao copo de café
sobre a mesa que atento
acompanha os óculos empurrados
ao pé de cada fato segundo indignação.

Uma surpreendida e recém-casada
jovem experimenta buscar o marido
trôpego na calçada que há horas
despertara alarido nos vizinhos.
Na fila do banco, num apelo pessoal,
o idoso reclama a prioridade
que não conseguira nem casa
por filhos ou netos ou do futuro –
ou da morte tão presente.

Uma vela apagada,
ao lado de vodca barata
e de um animal morto,
permanece intacta e ameaçadora
No cruzamento da Rua Padre Antônio
e da Avenida Santo Expedito.
A construção em uma esquina qualquer,
como um mutante crescente se transforma
a cada sol pela magia do trabalho das mãos
das máquinas – e por que não,
pelo combustível de suor.

Um homem se mantém
sem dormir por pensar na mulher
até num dado urbano se transformar
ao pular de qualquer viaduto
pra fugir da própria sorte cotidiana de bar.
Não menos obscuro,
em uma sala de espera do hospital,
uma criança tem a morte dos pais narrada
e o futuro discutido – sem a ela nada perguntarem.

Os ângulos ainda giram impiedosos
e eis uma constatação:
outros são convocados pelo sol,
várias mulheres são traídas,
velhos reclamam e as crianças – futuro? -,
órfãs de seus respectivos destinos – absoluto.


Moinho d’Água

Rosto.
Correndo.
É assim que todos estão,
Em torno dos seus olhos.
Há alguém
Com o dever de medir
Cada milímetro dos seus sóis.
Há outro
Que modula, faz pintura
O lenço de texturas que lhe cobre a face
E que outro retrata a madeira – sua moldura
Envolta de si.
Insiste matreira,
No brilho, no fundo,
No que lhe é oblíquo e turvo.
Outros projetam
A importância do seu corpo:
As voltas claras detalhadas,
Perfumadas no rosto de porcelana
Que gira lentamente, como um moinho
De águas tranquilas;
No fundo, no brilho
No turvo do oblíquo
Duas esferas como dois braços do eixo
Identidade
Brilhantes e ofuscantes
Nas águas claras de meu
Moinho d’Água.


Prelúdio

Eis a primeira nota que nos impulsiona,
Nós discorreremos até a última melodia,
E no intervalo de tempo que demarcar toda dança
Olhará conflitante
Redundante outra vez.

Do primeiro passo à ultima gargalhada
Deste primeiro tango, ao último adultério,
Percorrerá os caminhos
Da harmonia que refuta, ilude, consagra
Teu corpo alvo dançante.

Do último salto ao primeiro pasmar
Desde o primeiro choro
Que emancipou a vida
Soou como um coro às mães sofridas
Que abriram os braços e pediram:

“Que meus filhos gritem!
Que meus filhos vivam!
Que meus filhos se machuquem,
Mas que nunca durmam!”

“Que meus filhos dancem”, elas dirão
“Este último prelúdio, do primeiro dó à última nota,
Do último salto ao infinito pasmar
Esse prelúdio da cor viva do sangue”.


Foste

Eu era o pássaro machucado,
Caído e por fim resgatado
Pelo teu seio.
Olhaste para mim, pegaste-me no colo.

“A vida não é boa, meu bem” – avisei.
“A vida só não é justa” – tu lembraste-me.

A tal ponto que me convenci por segundos;
Se eu fora resgatado do mais profundo abismo humano,
Poderia abrir o meu peito
Nadar para longe da minha ilha de solidão.

E no ápice de minhas conclusões,
Foste embora.
Pegaste-me no colo,
Afagaste-me no teu seio
E logo se foste.

Eu era o pássaro machucado,
Caído – mas nunca reclamei ser resgatado.
Brincaste comigo.

Acredite, na ilha estava seguro.
Depois de tanto tempo precavido,
Deste-me sustento para de lá correr.
E deixaste-me no mar aos prantos.

Dizem que o homem experimenta amor
Uma única vez.
E, de repente, já não mais me importa
Morrer longe da ilha.

Meu bem, tiraste a solidão que me protegia;
Protegeste-me e foste.
Só digo-te que nada mais é possível pra mim,
Pois eu era o pássaro machucado e caído;
Agora, sem futuro, sem ti.


Fresta

Por que se preocupar com
As grades da janela
Se há a fresta?

Sobre a tranca da porta
A corrente encadeada
O chão de concreto
Andar dessa vida

Ausência da chave
Ausência do código
Da britadeira
Da senha
Ausência do fulgor dessa vida
Se há a fresta?

Passa moendo os ossos,
Olho liquefeito
E dos cabelos: um único fio.
E estará do outro lado,
Ainda sem chave ou magia
Respirando por uma fresta pequena e bendita!

 


Morena dos olhos

A cada palavra, morena,
Tu floresces,
Aspirante, e emerges,

Bailas nas trevas bronzeadas
Da própria pele,
Invocando meretrizes,
Outrora, velhas virgens,
Proclamando a história do campo,
Sofrendo por Sabará.

Menina doida que só
Pelo menino da rua ao lado,
Pelo pião que tens guardado,
Pelas cartas que tens te feito chorar,
Pelos versos que te fazem chorar
Por todas as mulheres que tens que guardar…

Ah, morena!
Podes saltar, rodar,
E perder as pedras dos teus vestidos.

Derrubes ao sabor doce da tua boca
As gostas ácidas do teu pensar.

Foste uma boa mãe,
Não tão boa esposa,
Porque não quiseste casar
À moda do povo

E acendeste o alarido,
Das velhas loucas fofoqueiras.
Das cidades de pedra
Das panelas de barro,
Tudo dentro de ti,

Como um velho cheio de anedotas,
Morena, brincaste contigo
Perdida no mundo das palavras,

Mas de um único poema.

Insistes em escorregar
Entre dedos já doídos.
Já cansaste os olhos, morena,
Porque tu trocas de pele,
Trocas de bronze,

Dos rituais clássicos,
Às interpretações mais modernas,
Das geringonças mais loucas
A mais alta tecnologia

Capaz de encolher gente
De fazer torta de limão
Usando apenas papel, caneta e solidão.

Perguntais do que gostas, morena.
Aposto no choro da criança,
Que vem de dentro de ti,
Das tuas asas de papel,

Do teu bailar no carrossel
De como sobes até o céu
De como santificas o sangue de prostitutas
Que corre de tuas mãos quando escreves.

Tua força épica de configurar-te
De não generalizar-te
De falar sobre artes,

Ah, morena, morena.

Tu manipulas as pupilas,
As minhas pupilas,
E manipulas meus olhos,
E se faz menina

A menina dos olhos,
A morena dos olhos,
Agridoce que só.

 

____________________________________________________________

 

À minha querida companheira de poemas e contos incansáveis, de fracassos reconciliáveis, de histórias inacabadas, de romances planejados, de capas arquitetadas, de críticas condenáveis e de uma sinceridade completamente pessoal.

 


Gargarejo

A cada pedido,
Elogio, sentido
Há uma dor pequenina
Que acompanha minha voz.

É como um rádio ligado
Que agoniza enquanto chia,
Como se estivesse preso a um nó.

Já não bebo, já não grito,
Já não falo, nem mesmo minto,
Porque dói, e como dói,
O corpo celeste da minha voz.

Então, uma alergia inflama,
E só restam canos entupidos
E eu coço, eu grito, e algo aqui dentro corrói.

Paro, respiro, sem sucesso vomito;
E lá me vem você com um líquido,
Cheio de ervas, que garganta a dentro
Tolero.

Gargarejo, gargarejo,
Gargarejando o amor,
Raspando fantasmas do fundo da alma
Eliminando lixo do seio da voz.

Há interferência, sintonia.
O ar passa, a coceira me desassombra,
Nem sangue sinto.

Mas ainda estou fraco,
Bambo, com um horrível gosto na garganta,
E a voz fraca nem sai mais pra fora.


Fogo

Não se inspire nas letras de fogo
Que consomem a leitura.
Que consomem os olhos do leitor.
Que cegam seu autor.

Não faça manobras perigosas,
Usando dois “Os”
E sim pare de correr nos trilhos
Das paráfrases loucas.

Nos corredores dos textos,
As letras das leis fazem sentenças.
Sentenças que cegaram seus autores
E provocaram horrores.

As palavras sinônimas e antônimas,
Que para o bem e comunicação foram criadas,
Por leituras feitas no cotidiano
Dos que não sabem ler.

E que os cegos expõem, sobrepõem,
E então elas queimam
Mais leitores, que se tornam autores,
E depois cegos.

Enquanto isso,
Os que não sabem ler,
Seguem nos trilhos,
Das paráfrases loucas.

Até tropeçarem nos corredores
E de face para o fogo
Fiquem cegos,
Ou seja, autores.

Mas não se preocupe,
São caprichos e metáforas,
De um sarcástico,
O fogo.


Ao teto

Meu querido amigo teto,
Obrigado por todas as metamorfoses
Pelas quais tem passado.
Quebro-lhe sempre com meu pensamento-martelo
Com as mil vozes
E gritos de horror recheados.

Obrigado por ser o céu
Desse poço de quatro paredes
Por ser quem me toca do alto.
Obrigado por ter sido das minhas lágrimas o tonel
Por ter me feito ter sede
Para d’a minha cama sair num só salto.

Teto, obrigado por ter me deixado
Daqui de baixo lhe observar.
Por poder mapear seus leves acidentes.
Obrigado por nunca ter sido vago
E por ter me permitido lhe cavar
Até enterrar em você todos os meus pensamentos.

E no mais, teto amigo,
Obrigado por me assistir sem julgamentos,
Por fazer meus sentimentos também seus.
Obrigado, querido,
Por guardar meus desabafos em seu cimento
E por compor esse corpo, que reflete em você, tudo que é meu.