– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

Onomatopéia

Canção: a arte da poesia cantada

Eu esperei por essa postagem por muito tempo, mas somente agora consegui formulá-la de fato na minha mente. E é com todo o prazer que a transponho neste blog. Para quem entende um pouco de gêneros literários sabe que, o gênero lírico é muito amplo no que se diz respeito à formas clássicas poéticas. Uma delas está presente no nosso dia-a-dia, aliás, faz parte do que nos compõe. Faz parte do nosso gosto, ou seja,indiretamente, todos são fans de literatura. Estou falando de música. Ok, não propriamente da música, mas da letra dela.

Na música clássica é muito comum não haver letras. Somente se faziam letras para corais das igrejas e essas letras eram dedicadas a Deus. Mas acho importante ressaltar que a música, assim como a literatura, é uma maneira de expressão.

Vamos devagar. Se você concordar que a literatura se compõe nas palavras e que as palavras, por sua vez, foram “inventadas” para a comunicação, concordará também que a literatura comunica algo ao leitor. Uma expressão. No caso da música, os sons são responsáveis pela interpretação. Na literatura são as palavras.

NOTA

“Se até a música tem suas propriedades,

Se até seu ritmo sua identidade,

O que tem nessas palavras,

Que apesar de parecerem,

Que apesar de parecerem,

Não consistem em mediocridade?”

(Vinícius Reis)

Para entender melhor o que quero dizer, uma breve explicação sobre gênero lírico: O gênero lírico consiste em algumas formas clássicas poéticas, denominadas ode, canção, epigrama e balada. No caso das letras musicais, as mais comuns são a canção e a balada. A diferença básica entre elas é a presença de um refrão na forma balada. Enfim, a literatura, poesia está presente no que ouvimos. E essas letras são poesia, duma forma mascarada, apoiada na harmonia, no ritmo, às vezes até na dança. Quantos casais não escolhem determinada música por causa de sua letra? Não é essa a escolha de uma poesia, ainda que indiretamente?

Sem me referir ao estilo musical, quero lembrar que as letras sempre colocam em evidência alguma coisa (ou pelo menos devia ser assim), portanto se a colocarmos em uma análise literária observaremos que acontece o mesmo que na poesia bruta.

E nessa postagem abro um espaço para as letras que interferem no existencial. Sim, pois como alguns sabem, nós o período modernista da década de 20 ainda interfere em nós e no que ouvimos. E como produto disso, a cada dia que passa, se é mais frequente poesias que criticam a nossa sociedade. Exemplo? Vamos nos deliciar com um trecho do poema”O bicho”, de Manuel Bandeira e com a versão da letra da música “Hide and seek”, de Imogen Heap:

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio,

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão.

Não era um gato.

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

“Onde estamos? Que diabos está acontecendo?

A poeira apenas começou a cair

Cortes circulares no tapete, afundando, sentindo

Me rodopie de novo e esfregue meus olhos

Isto não pode estar acontecendo

Quantas ruas congestionadas, uma bagunça com pessoas

Poderia fazê-la parar para segurar suas cabeças pesadas.(…)”

Imogen Heap

 

No poema e na letra, não há algo do social expresso? A bagunça, o caos, a incredulidade do eu-lírico decepcionado?Há. E isso, meus queridos, é pura poesia.

Para aqueles que gostam do romance, da situação entre um casal em separação, nada melhor que citar Chico Buarque, músico, dramaturgo e escritor. Eu escolho, “Trocando em miúdos“:

(…)Mas devo dizer que não vou lhe dar

O enorme prazer de me ver chorar

Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago

Meu peito tão dilacerado.

(…)Eu bato o portão sem fazer alarde

Eu levo a carteira de identidade

Uma saideira, muita saudade

E a leve impressão de que já vou tarde.”

Chico Buarque

 

Para terminar essa postagem deixo o convite para todos: analisem as poesias  letras das músicas e admire-se com elas. É realmente interessantíssimo. Abraço a todos, aspirante a escritor.

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De todos os cantos para o mundo

A teia

No fundo do canto do meu quarto

quase não saio

Ali!

Uma teia…

Da aranha o mundo inteiro:

a sala; a cozinha; o banheiro.

O universo matreiro insistia,

a zombar da minha agonia:

Ela fia,

Ela fia,

Ela fia…

Poesia. Uma palavra muito simples, com seis letras, quatro vogais… Para os que não sabem essa simplicidade ocasiona muita dor de cabeça. Homens e mulheres se dedicam à poesia de maneira que o simples se converte em complexo e depois se torna no simples. A poesia acima é de Antônio Gomes que trabalha nas etapas poéticas com estilo.

Um tema tão simples como a teia de uma aranha é transformado em algo poético e isso merece a sua atenção.

Antônio Gomes trata com cuidado as palavras que usa, nem sempre delicadas, mas considero todas elas substantivos interessantíssimos que ao contrário do que pensam, propiciam ótimas poesias. Sem medo ele as escolhe, as usa, as rima e não se preocupa com o efeito delas. As interpretações dos leitores devem ser alinhadas com cuidado nas rimas e ligadas às metáforas consideradas por mim, alvos de Antônio Gomes.

Essas metáforas são notadas neste outro poema de Antônio:

UM QUARTO

de medo

pode levar

uma vida

INTEIRA.

Jogar, essa é a palavra relacionada com os poemas desse autor. Jogar com as palavras, jogar com os sufixos, prefixos, jogar com a essência das palavras e até mesmo com metáforas que a princípio não mostra nada e no final, dá nexo a tudo.

NOTA

“Veja esse texto,

o meu trecho,

de desgosto,

de agouro,

de vitória.

Leia minha mão,

minha mente,

fique sem chão.”

(Vinícius Reis)

É bom acrescentar que para o contrário de muita coisa que outros podem pensar, Antônio Gomes não trata de coisas sem sentido. Ele dá sentido à elas e tem mais: adiciona termos, sensações às coisas que já conhecemos, marcadas por nossa história, como no poema “Foi aí…” se acha que sua capacidade se resume a isso, também há deles românticos como no seguinte:

Sentinela

A moça na janela: sentinela

da cela do seu surdo

criado-mudo;

mal sabia dela!

Repito que para fazer uma poesia no estilo de Antônio Gomes deve-se passar por processos na hora de escrevê-la. Deixar sem nexo, rimar e no final dar coesão ao texto todo. Não é um trabalho para fracos, é um trabalho para poetas! E pra encerrar essa postagem, nada melhor que mais uma poesia de Antônio Gomes, sobre a vida; uma poesia onde vejo muito sobre a própria arte de fazer uma. Abraços a todos, aspirante a escritor.

Poema da vida:

por vezes, tanto trabalho

e pouca poesia.

Obs: postagem do dia 11/02/2010 (A onomatopéia).


Diário de porcelana

“Agosto. Vento forte. Tudo faz sentido. Tenho calma para contar nos dedos. Mas ao mesmo tempo uma angústia que me envolve, um medo que me atrai e que me leva pra longe de tudo e de todos. Não sei ao certo o que vejo. Não tenho certeza da música que ouço ao longe, que demasiadamente conta minha história com indiferença. Chego mais perto. Agora vejo com clareza o portão. Posso ouvir com nitidez os passos no saguão.

Estou sem ar. Mergulhei num mar de sons e palavras que me dizem o quão rápido o tempo está passando. Mas como posso eu viver sem ar? Como posso eu respirar?

Me visto, e saio correndo, para mais um “round” de rotina. Quase me esqueço do casaco, mas o ser humano é muito dependente, para se esquecer. “Agostos”, penso. “ No meu ‘lar’, tudo ficará bem, tudo ficará bem”. O meu lar. Lá, onde tudo parece estar certo. E eu sei que está. Lá eu sinto que posso fazer tudo. Lá, eu não disfarço o meu sorriso. Aceito qualquer desafio. E eu não quero que um dia, esse lar se destrua. Porquê até a morte pode me visitar, um dia. Mas eles ficarão vivos. Vivos como a força que eu sinto agora. Porquê eu posso perder tudo. Menos os meus sonhos. Menos o meu lar. Porquê nele está a confiança do que eu fui um dia. Do que eu sou. E do que eu sempre serei, graças à esse “lar”. Lá. No meu porto-seguro.

Eles sempre estarão lá. Os meus sonhos. Basta que eu feche os meus olhos, ou na maioria das vezes, não. Mas não agora. Não aqui. Porquê aqui, a insanidade toma conta dos olhos das pessoas. Aqui tudo é cruel. E aqui, é cada um por si. Eu vejo, eu sinto. Eu sou atraída. Eu sou envolvida. E aqui, as horas passam em gotas homeopáticas, onde os únicos amigos e amigas são os livros, os anjos e as badaladas do sino da torre da igreja, que, de hora em hora me avisam o quanto ainda falta para retornar ao lar.”

 

Ainda insisto dizer que aqui você só irá encontrar coisas que merecem sua atenção. E pra concluir esse pensamento, relaciono-os com o pouco que sei sobre arte. Na postagem anterior busquei chamar atenção para as outras pessoas e neste procuro chamar a atenção para o que elas pensam.O texto acima é da estudante Patrícia Pereira. O estilo de texto dessa jovem é um pouco pessoal. Ela usa as palavras ao seu favor. Digo o porquê disso da seguinte maneira: o “eu” está sempre no centro e as coisas que acontecem com ele determinam o rumo das palavras. E o caminho que elas tomam está ligado ao fato de sair de uma atmosfera densa e um pouco triste, para um lugar onde haja consolo. É um texto muito feminino. Eu não espero entendê-lo por completo, afinal sou homem, mas espero ao menos entender o por que desse estilo. A estrutura dos textos da Patrícia está baseada em fatores surreais, sensações femininas (o que acho interessante, diga-se de passagem), e com algo de menina, de criança. A estrutura basicamente é a de um diário. Um diário onde não tem medo de expor o “eu” frágil.

NOTA

“Mentalize um lugar

Onda não precisa se preocupar.

Busca algo surreal,

Sem formalidades, é sentimental.

E de alvo em alvo

Chega ao canto das cartas

E horóscopos.

Delicadeza, palavras, textos e poemas

Dedico à esse lugar.”

(Vinícius Reis)

O trabalho dessa menina vai longe. Me traz curiosidade em conhecer o que realmente se passa além das letras. Tenho curiosidade em saber como elas se formam. E é por isso que esse texto está aqui. A delicadeza feminina e o modo que as mulheres usam para se expressar através das palavras merece nossa atenção.
Considero Clarice Lispector um alvo disso. Seus textos são baseados em visões femininas das coisas. Enfim, além de uma grande confusão o pensamento feminino é utópico, mas julgo extremamente necessário que nós homens – e aspirantes a escritor, literários, maridos e amante – que ao menos procuremos entender esse estilo.

Aliás, chamo esse estilo de escrever de “Diário de porcelana”, afinal o diário é um objeto de uso principalmente feminino e o chamo de porcelana por ser tão delicado. E pensando nessa delicadeza fiz uma pequena experiência, mostrei o texto a um amigo que ainda não conhecia o estilo da Patrícia e a reação foi surpreendente. “Perfeito… Quem é essa garota?”
Fiquei contente com a resposta. Afinal me despertou curiosidade sobre o texto, sobre o estilo e logo outro amigo, homem, procura saber quem é a menina.

E não digo que tal menina seja a própria Patrícia, mas sim todas as adeptas ao estilo “Diário de porcelana” de escrever.
Devo dizer que é muito complexo esse estilo. E é por isso que recomendo, às mulheres que escrevem nesse estilo que busquem as palavras certas e clareza. Esse texto da Patrícia foi claro e é por isso que está aqui. Na Internet há tantos sites de garotas adeptas a esse estilo e que escrevem e os leitores não entendem nada. E isso realmente faz o leitor cansar até não gostar do estilo. Admiro o trabalho feminino na literatura, mas imploro às mulheres clareza nesses textos. Patrícia alcançou isso e por conta de tal mérito merece estar aqui.
Obrigado Patrícia, continue com o seu trabalho. A todos um grande abraço, aspirante a escritor.


é pra você, abra

 


"Dê-me o seu dinheiro"

 

As coisas naturais e simples são realmente incríveis. E o melhor delas, é a capacidade de cada uma combinar com as outras. Mas há suas partes negativas em toda simplicidade e naturalidade: a indiferença.

Nós nem notamos as coisas simples. Esta primeira postagem é um alerta para o leitor, para que note as coisas ao seu redor, fora da atmosfera que construímos ao nosso redor. Repare nas ruas e nos rostos das pessoas que transitam.

Sem rodeios, agradeço à Mariana Lima por ter me cedido a fotografia que me despertou a respeito disso. “É pra você, abra” é um álbum simples, da estudante Mariana Lima que me inspirou a respeito das coisas simples. “Dê-me o seu dinheiro” foi a legenda dada pela própria Mariana, e essa foto vi como um presente atencioso para com o outro. E nada melhor do que um presente, destinado à nós. A fotografia acima merece nossa atenção.

NOTA

Humanos nascemos, crescemos

Eis o fato.

Roupas vestimos,

Eis o que vimos.

O homem evolui,

Eis a mentira.

Ninguém rouba nada,

Só pega de volta o que lhe tomaram.”

(Vinícius Reis)

A naturalidade é efeito do costume imposto pela atmosfera que criamos à nossa volta. Nos protegemos, negamos notar algo tão importante quanto um ser humano à mercê da sorte. Historicamente falando crescemos tanto, sofremos, vencemos, mas eis um fato: não evoluímos.

Ainda há restos nossos espalhados pelos cantos da cidade. E esses restos não se expressam. Claramente falando (e não é sarcasmo da minha parte), os restos somos nós com roupas, casa e carros. Os outros (que não vemos) são só o “humano aflorando”. Se sujando, sem comer. Como deveríamos estar, já que nossas ações refletem isso.

Agradecimentos à Mariana Lima, aspirante a fotógrafa. Suas fotos merecem nossa atenção. Abraço a todos, aspirante a escritor.

Postagem do blog “A onomatopéia”, 06/02/2010