– ele tripudia enquanto escreve, tripudia enquanto lê, tripudia enquanto ama e até quando Deus quiser.

Últimas

“Pára-choque”*

Abri a porta da sala e a mulher de cinquenta anos, cabelos pintados de vermelho à altura dos ombros e volumosos – arquitetados sob uma franja ridícula – me esperava sentada no sofá, assistindo o jornal. Seus olhos manchados de marrom, seus dentes já amarelos; tudo enxerguei à primeira vista ao entrar dentro de minha casa.

Cumprimentos. “Estou com uma dor nas costas hoje.” Ergui a cabeça como quem presta atenção, procurando uma brecha na entonação da voz de minha esposa para fugir pro quarto. Foi o que fiz. Nos corredores da casa, uma barulheira vinha do quarto de minha filha. Bati à porta do quarto de meu filho. “Tô dormindo, droga!”

Bem ou mal, trata-se de minha rotina. Tomo um banho rápido, leve, pra não pesar muito. Normalmente, Anita, a empregada horrorosa que minha esposa colocou no lugar duma gostosa que eu mesmo tinha contratado, já tem o jantar preparado. Basta eu aparecer na mesa cozinha e ela nos serve. O moleque sai com a cara amassada de dentro do quarto, com um forte mal hálito. Minha menina nem presta atenção; só come, come, come… Olha pedindo pra se retirar. “Mal educada!”, responde minha mulher depois da menina já estar pra lá dos corredores. Comento sobre o carro novo e minha satisfação. Minha mulher se mantém focada no próprio prato.

E é aí. “Vou ver a novela”, diz ela. “Tem uns caras aí me chamando, já volto”, diz o rapaz.

Garagem.

Dá vontade de nem participar mais do jantar. De correr pra garagem, olhar o carrão que mantenho guardado. Um pará-choque fantástico reforçado de aço. Uma cor neutra mesmo debaixo de luz. Libertação.

“Vou dar uma volta pela cidade”, proclamo rapidamente ao passar pela sala. Minha mulher está mais preocupada com alguma traição da ficção.

Pego o carro e procuro algum lugar longe, pra lá da classe média, pra lá do moleque de mau hálito, da menina egoísta, da mulher hipocondríaca, do meu eu fracassado.

Espero até as dez.

As ruas se esvaziam, crianças já não brincam mais esse horário. Nas periferias daqui, não se passa das nove na rua. Só se vê os passos rápidos de trabalhadores que descem dos ônibus correndo procurando a própria casa na esperança de dormir e no outro dia, antes do sol raiar, levantar pra trabalhar. É por aí que vejo gente de verdade.

Até que alguém mais frágil, numa sapatilha velha, numa saia pra baixo dos joelhos, alguém que segura firme os próprios braços contra o corpo na tentativa falível de vencer o frio da noite de garoa, tenta chegar em casa.

Não há ninguém nas ruas.

Faço as voltas necessárias para me manter no sentido em que possa contemplá-la de frente. Passo uma vez e fito-a com os olhos. Ela não pode ver-me. Os vidros escuros que insisto dizer “protetores contra o sol” a impedem disso no meio da noite. Dou a volta no quarteirão… Antes de me virar na rua em que ela está, apago os faróis, diminuo o barulho, não acelero. A inércia toma conta do veículo que desce a leve inclinação da rua, a perspicaz libertação… Viro.

Devargazinho pego o movimento ladeira abaixo. A mulher olha pro chão com passos rápidos. Nem repara em mim. E acelero. Ela só se dá conta do quão perto estamos – eu e meu carro – quando as borrachas dos pneus sobem na calçada. O pára-choque mais caro do mercado bate de frente na altura dos joelhos. Do volante consigo sentir dois ossões se quebrando. Ouço um grito desesperado. Ela voa longe. Êxtase total.

Acelero dali. Dou mais algumas voltas na cidade, encho o tanque bem longe, volto pra casa. Na garagem, olho o pára-choque. Liso! Certos consumos são investimentos de lazer. Entro pra casa, minha mulher está intrigada com o enredo dramático de um filme na TV. Ouço o teclar do computador vindo do quarto de meu filho, uma briga de namorados adolescentes ao telefone de minha menina. Vou pra cama. Hora de dormir tranquilo e conformado com a vida que levo.

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*BASEADO EM UMA CRÔNICA DE RUBEM FONSECA

#24

Não que eu não goste das flores. Que sejam violetas, rosas ou margaridas, silvestres ou violadas geneticamente. Só espero não vê-las sob a terra. Quero que aguardem de mim uma ordem para que floresçam freneticamente a fim de se transformarem em vida morta.

Prelúdio

Eis a primeira nota que nos impulsiona,
Nós discorreremos até a última melodia,
E no intervalo de tempo que demarcar toda dança
Olhará conflitante
Redundante outra vez.

Do primeiro passo à ultima gargalhada
Deste primeiro tango, ao último adultério,
Percorrerá os caminhos
Da harmonia que refuta, ilude, consagra
Teu corpo alvo dançante.

Do último salto ao primeiro pasmar
Desde o primeiro choro
Que emancipou a vida
Soou como um coro às mães sofridas
Que abriram os braços e pediram:

“Que meus filhos gritem!
Que meus filhos vivam!
Que meus filhos se machuquem,
Mas que nunca durmam!”

“Que meus filhos dancem”, elas dirão
“Este último prelúdio, do primeiro dó à última nota,
Do último salto ao infinito pasmar
Esse prelúdio da cor viva do sangue”.

A mentira das pedras

Maria Aurora tinha espalhado cartazes nos postes, paredes e nas línguas das mulheres da cidade. Uma amiga veio dizer que a tal o ajudaria a entender. Entender o que ele ainda não sabia, mas não teimou em ir. Se valesse uma noite de sono, atenderia ao pedido sincero da colega.

Fugiu do trabalho depois do almoço e se deitou no sofá pra dar um cochilo. Maria Aurora o atenderia às quatro da tarde. Em vão permaneceu suando de olhos fechados. Ficou um pouco irritado, correu pro chuveiro e decidiu pegar as chaves do carro. Disseram-lhe que a mulher era muito requisitada por pessoas de toda a região. Se ele conseguira uma hora com ela, ele deveria visitá-la e não se atrasar, pois uma hora com Maria Aurora era uma hora de libertação e compreensão da vida.

Não era fã das filosofias populares, das mulheres cheias de drama. Essas deviam concorrer por vagas em teatros e televisão – talvez até novela de rádio – mas não tentar bancar a sabichona das conspirações do universo.

Entrou descrente na casa onde Maria Aurora atendia seus fregueses. Pensara uma coisa, mas se enganou, não era coisa de mulher. Tinha muito macho lá. Não perguntou nada a respeito do que faziam ali, mas dois começaram a conversar e expuseram a própria situação. Um falou que estava ali pelos negócios, o outro porque a namorada morrera e queria um contato espiritual. E se sentiu um idiota por estar ali. Ele não ligava pro futuro, não ligava pra essas mulheres que vão e vêm; só ligava pro próprio sono. Então, por que diabos ele não procurara um médico pra isso?

Uma assistente de Maria Aurora convidou-o a entrar. Havia pedras dessas que se acham na rua sobre a mesa de trabalho da velha – sim, Aurora era uma mulher velha e não uma quarentona que tentara ser perua e fracassara. O esperava sentada numa velha cadeira de plástico trançado e o olhou tão profundamente que fez com que o rapaz se sentisse nu. Permaneceu em silêncio e ela iniciou.

“Fale-me sobre seus sonhos, garotinho”. Seus olhos se arregalaram. Como aquele demônio enrugado sabia sobre seus sonhos? Acreditou ter sido tiro de sorte e cogitou até mesmo que a colega contara à velha sobre as coisas pelas quais tinha passado.

“Tenho um sonho”, e acomodou-se melhor na cadeira. “Desses que nos faz pular da cama, que faz com que sintamos uma gota gelada correr pelas costas quentes. Há um garoto sentado. Ele está brincando com um baralho de cartas e um senhor já de idade está sentado num poltrona o observando.”

Maria Aurora sacudiu a cabeça e jogou as pedrinhas sobre a mesa.

“Não quer falar sobre os relógios?”

O rapaz expressou terror e engasgou. “Relógios?”, perguntou tímido. A mulher nada respondeu. Abaixou a cabeça, pigarreou e terminou: “Há relógios sim. Muitos deles sobre as paredes de madeira. Cuckoos eu acho.”

A velha franziu a testa, bateu as palmas das mãos sobre a mesa. O rapaz se manteve de cabeça baixa.

“Olha”, começou, “acredito que você queira entender isso. Há uma lógica. Hoje, por exemplo, progredimos muito em pouco tempo; digo o que acho. Você entende e se vai e ponto. Se precisar vemos uma consulta. Mas isso você vê com a assistente”, em um tom de voz até ensurdecedor. “Procure a Suzana, Suzana cuidará de você.”

Balançou a cabeça, olhou para baixo e não ousou erguer-se por mais de dez segundos.

“E sobre meu sonho?”

Maria Aurora ergueu a cabeça em ar de superioridade e bradou feliz:

“Você é o menino e o velho. Você nasceu e você morrerá. Não que isso seja novidade, não é mesmo?”, falou tentando brincar para descontrair. O rapaz não respondeu com um sorriso. “Enfim”, voltou ela séria ao exercício de seu trabalho, “você chegará à terceira idade. Terá uma vida longa e no trajeto dela se lembrará da sua infância. As coisas que você fazia serão o guia do que deve ser feito agora e…”, a velha olhou o relógio e viu que não dava mais tempo. Marcara uma consulta meia hora antes do que devia. Avisou o rapaz, mas este nem se importou. Lembrara-se do que fazia quando era criança e tinha medo do escuro. De quando não conseguia dormir.

“Dê o dinheiro à Suzana”, falou Maria Aurora praticamente o expulsando do consultório. Saiu procurando pela moça que o puxou pelo braço. O fez assinar um termo de responsabilidade, a pegar o dinheiro, cobrou uma taxa pelo café que nem bebera – mas que Suzana deixou claro que se quisesse o tinha disponível – e tentou dar adeus. A moça o pegou pelo braço e falou:

“Moço, cuidado na rua. Sua próxima consulta está marcada. Mas sinto que você não vai vir. Talvez não precise mais, não é mesmo? Mas nunca se esqueça de madame Maria Aurora.”

Sentiu uma paz dentro do peito e manifestou a vontade de ter com a mulher de novo, só pra explorar mais a vida. Tentou se lembrar de mais coisas que fazia quando criança. Pulou uma amarelinha imaginária na calçada, fez de conta que trazia um carrinho em suas mãos e brincou no paralelepípedo.

Desequilibrou-se e caiu no asfalto. Quando tentou levantar-se, um carro se chocou contra ele, o fazendo voar praticamente de volta pro passeio de Maria Aurora. O motorista acelerou e fugiu. O rapaz ficou olhando pro alto, pro alto, esperando que alguma mãe o viesse socorrer. Era o que teria feito como criança.

Por fim, desequilibrou-se no paralelepípedo e nunca, nunca, mais voltou a viver. Nem mesmo pra conhecer sua terceira idade ou contar ponteiros dos relógios que anunciavam não haver mais tempo.

Foste

Eu era o pássaro machucado,
Caído e por fim resgatado
Pelo teu seio.
Olhaste para mim, pegaste-me no colo.

“A vida não é boa, meu bem” – avisei.
“A vida só não é justa” – tu lembraste-me.

A tal ponto que me convenci por segundos;
Se eu fora resgatado do mais profundo abismo humano,
Poderia abrir o meu peito
Nadar para longe da minha ilha de solidão.

E no ápice de minhas conclusões,
Foste embora.
Pegaste-me no colo,
Afagaste-me no teu seio
E logo se foste.

Eu era o pássaro machucado,
Caído – mas nunca reclamei ser resgatado.
Brincaste comigo.

Acredite, na ilha estava seguro.
Depois de tanto tempo precavido,
Deste-me sustento para de lá correr.
E deixaste-me no mar aos prantos.

Dizem que o homem experimenta amor
Uma única vez.
E, de repente, já não mais me importa
Morrer longe da ilha.

Meu bem, tiraste a solidão que me protegia;
Protegeste-me e foste.
Só digo-te que nada mais é possível pra mim,
Pois eu era o pássaro machucado e caído;
Agora, sem futuro, sem ti.

Lira,

Tenho certeza que vai me censurar. Vai me chamar de covarde, morder a boca enquanto lê esta carta. Vai colocar as pernas em cima do sofá e, quando terminar de ler, disfarçar uma lágrima. Jogar esse texto no chão e correr pra sacada só de sutiã e calcinha com um cigarro na boca com sua cara pervertida de poucos amigos.

Os vizinhos do 310

O calendário mantinha sua corrida desembestada e eu me desesperava com cada cavalgada que os malditos cavalos dos ponteiros davam. Não dormia bem há dias, já não comia direito e pra terminar minha vizinha do 310 continuava a me tirar do foco. Ouvia os gritos da pobrezinha que vinham do apartamento de cima. Às vezes, sentia que algum animal a erguia no alto e a jogava com toda a força contra o chão, o que me fazia crer que ela acabaria quebrando o teto e caindo em cima do meu computador, destruindo todo o trabalho que eu tinha tido no último ano com minha tese.

Diariamente, assiduamente às sete da noite; a vizinha de quarenta e poucos anos começava sua ópera desafinada de choros, palavrões e gritos em resposta às agressões do animal que não conseguira domesticar em vinte anos de casamento. Nessa hora, eu tentava me esgueirar na minha sacada, olhando pra cima, caçando algum punho no ar, alguma cabeça rolando ou até o corpo da coitada sendo lançada sobre o asfalto quente do fim da tarde. Mas meus vizinhos tinham instalado uma grade trançada em largos vãos que impediam qualquer ser com mais de dez centímetros se lançar lá de cima.

O máximo que eu conseguia ver era a grade sendo estufada, como se estivesse pronta para explodir enquanto o marido da vizinha segurava firme o pescoço dela e a erguia, comprimindo-a contra a grade, arrastando por alguns minutos os gritos contidos.

Minhas apostas eram que eu sempre estava ouvindo a  última surra. Me incomodavam os palavrões criativos que eram ditos na harmonia da briga. Cortavam meu raciocínio, me faziam perder as páginas que eu usava como bibliografias. Eu misturava o nome dos autores que eu usava como referências até que um dia eu percebi que o casal brigava a mais de um dia seguido, com pausas leves de somente choro e quebra de móveis.

Eu estava praticamente terminando a tese. Faltavam apenas alguns parágrafos. Mas já estavam gritando tanto que não resisti entrar no elevador e subir até o apartamento 310. Bati à porta e ouvi o homem mandá-la parar de chorar. Soltou um palavrão enquanto girava a maçaneta para abrir a porta, reclamando da hora.

“Estou tentando estudar. Podem brigar enquanto eu estiver fora?”

Acho que foi a primeira vez que vi a mulher. Estava como um pano de fundo pregado ao fundo da fresta da porta que o desgraçado tinha aberto. O filho da mãe bateu a porta e voltei pro meu apartamento. Sei que ele a mandou ir pra sacada, obrigou-a a se sentar no chão, no cantinho. Sutilmente me coloquei abaixo da sacada dos meus vizinhos de cima e comecei a ouvir os chutes violentos que o desgraçado dava na pobre mulher. Pude senti-la colocando a cabeça entre os joelhos, tentando privar o pouco de sanidade que lhe restara dentro de sua mente.

Olhei para o telefone pela porta transparente da sacada. Pensei em ligar pra polícia. Mas eu teria perda de tempo a fazer o boletim de ocorrência, servir de testemunha, quem sabe até dar depoimento. Eu não tinha tempo pra isso e tão violento estava o aproximar da data de entrega da minha tese quanto a surra que a mulher levava lá em cima. Entrei para dentro, fechei a porta para abafar o choro e me sentei à mesa cheia de livros espalhados. Adormeci.

Quase sete da manhã, a vizinha bateu à minha porta.

“Me desculpe por ontem”.

Somente assenti. Notei o rosto machucado, as canelas e os braços cheios de hematomas. Uma pena extrema se despertou em mim e, então, olhei para baixo fixamente esperando que ela se despedisse.

Na hora do almoço, minha tese tinha progredido. Faltava o último parágrafo da conclusão. Fui pra sacada descansar a mente um pouco, olhar a paisagem fatigada da vizinhança quando ouvi um grito que era dado fora de hora. O homem reclamava da comida.

Eu nunca fazia almoço, só comprava comida. Se eu soubesse que o filho da mãe ia jogar o prato dele cheio de comida além das grades, tinha me preparado. Teria aberto a boca pra cima esperando um pouco de comida caseira cair na minha boca. Mas eu já a tinha perdido pro asfalto lá embaixo.

E a briga se estendeu. O último parágrafo da minha tese travou. Fiquei tão irado pelo calor, pela briga que fui até a sacada e gritei mandando eles pararem. O desgraçado me xingou de alguma coisa, mas achei ter ouvido a mulher pedindo minha ajuda. Olhei para o telefone.

“Vou chamar a polícia”. Entre para dentro e olhei minhas coisas espalhadas. Me senti um idiota pelo pensamento anterior. “Tenho que cuidar das minhas coisas! Eu ainda tenho uma última coisa pra fazer. Termino minha conclusão e depois, só depois, ligo para a polícia”.

Voltei para a sacada, gritei um palavrão como resposta. Voltei para dentro, fechei a porta, liguei o som. A data de entrega da minha tese está próxima demais pra eu me preocupar com a minha péssima vizinhança.

Soldadinhos de Chumbo

“‘bang, bang!’
põe o chapéu, menino
e água nessa pistola
brinca direito, sem palavrão,
mas faz o favor de não se molhar”

A esperança de estar fora daquele lugar em alguns dias era presente a todo instante, apesar de segundos de incredulidade pelos quais eu rapidamente passava. Um arrepio tomava conta de mim nas mais opostas situações: na barraca, na mesa improvisada, no movimento de continência e numa simples cerca de arame farpado – que em especial me descontrolava, pois era o que nos mantinha longe do controle de nossas vidas.

Se a guerra é uma arte, a identifico como a da manipulação em que não há nada exatamente a se perder. Afinal, se a vida é o bem mais precioso e é desperdiçado em todos os cantos dela, não devo bem-dizer sobre a mesma. Mas considero que essa não é uma questão a se tratar em conjunto: cada um por si sob a falsa imagem de amor patriótico e luta coletiva em prol de um bem maior configurado num sintoma de fraternidade identificada.

Desses irmãos, alguns foram protegidos por cercas e acampamentos bem montados sob as florestas densas. Para que não chamássemos atenção uma pequena fogueira. E um dos irmãos, um Tenente, meu Senhor – e apossado do meu destino – me convidou a conversar. Não recusei apesar do cansaço que teimava cair sobre meus músculos já tão rígidos.

Esperei minutos do lado de fora da cabana, esperando-o e um subordinado que eu conhecera no Colégio Militar me avisou que eu podia entrar. Respondi com um sorriso, mas não obtive qualquer outro sinal amistoso. A situação estava explosiva e nenhum bom homem ou amigo de infância ou de guerra deveria se preocupar com o outro se fosse possível a ele sair dali.

Como um bom soldado, não demonstrava o cansaço sobre os meus olhos e senti parte da admiração de meu senhor. Uma missão de sucesso rende bons frutos ao longo de uma guerra. “Obrigado, meu rapaz, a cada vitória me sinto mais perto do fim deste inferno”, falou para mim. Avisei em estado de continência que eu só havia feito o meu trabalho diante do país. Ele apenas sorriu. Sabia tanto quanto eu que meu objetivo era o de sumir dali.

Começou a falar sobre a próxima missão e mostrou-me uma prancheta rabiscada de giz, revelando a mim a liderança da ação. Perguntou minha opinião e busquei não encontrar um defeito, mas meus sentidos me levaram a uma pequenina falha que se referia ao tempo, tal coisa que se resolveria retirando uma dezena de homens de um determinado lado. Observei da região que se tratava e expressei erroneamente surpresa quando vi casas de civis e orfanatos. O Tenente apenas sorriu, ainda pensando sobre minha primeira percepção e apagou alguma coisa com o punho cerrado anotou o que eu falara, ignorando o segundo ponto. “Se der certo, prometo que você volta pra casa em menos de uma semana”. Meus olhos quiseram pular de lágrimas, comoção e até me permiti cogitar abraços, mas rigidamente respondi com um baixo obrigado e assenti com a cabeça num gesto robótico.

Notando um desespero contido o homem tocou-me nos ombros e falou como se estivera na rádio de um governo em crise, no entanto, sem as conotações devidas: “A situação de um soldado fora de seu país é difícil e devemos deixar claro para nós mesmos que nesse conflito importam apenas nossos interesses e nosso povo. Amor à pátria. Defenderemos com nossas vidas, mas para isso lutaremos, nem que isso signifique tirar a dos outros. Todos. Não poupe ninguém e então teremos intimidado nosso adversário. E o mais importante, você estará em sua casa livre para cuidar da sua vida.”

Apesar de gelar por dentro, eu sabia que todo o flagelo que eu provocaria e passaria seria necessário. Como cidadão, patriota, como alguém que tivera que colocar interesses particulares em segundo plano para que alguém se beneficiasse com o sofrimento alheio.

Deveria eu executar com sucesso e permitir que pelo menos uma vez um narcisismo tomasse conta de mim. Respondi ao homem que eu já entendera e simplesmente saí da cabana, meio zonzo procurando minha barraca. Meu companheiro estava de olhos fechados e não dei muita importância a isso, apenas o invejando por conseguir dormir, até que ele virou-se para mim, depois de eu já ter me deitado, perguntando: “o homem já te contou o que vamos fazer?” Respondi que sim. “E as crianças? Teria coragem?” Não havia outra resposta. “E se falharmos em um primeiro momento? Se nos notarem aproximando? O orfanato, se alguma criança estiver fora da cama e simplesmente perguntar quem somos?”, já dizia soluçando.

Silenciei-me por segundos. Uma lágrima correu no meu rosto. Respondi secamente: “diga que somos brinquedos de outra criança. Diga que somos soldadinhos de chumbo.”

#23

Vou me cobrir e sonhar com o cigarro dos outros, nos olhos dos outros, nos rostos dos outros, na casa dos outros e com a mulher dos outros pra não terminar com qualquer outro fim que não seja com a bala de um marido traído na minha testa.

Raquel

Raquel era um jogo de quebra-cabeça com que eu insistia jogar. Tinha o cabelo um pouco abaixo dos ombros, uma franja acima das sobrancelhas, um sorriso de dentes largos e olho tímido entre as têmporas e o volume de suas maçãs. Até então eu não conseguia vivenciar sem Raquel, comer sem Raquel, trabalhar sem Raquel. Comparar as mulheres que se insinuavam automaticamente no rebolado do caminhar pelas calçadas com Raquel; beijar-lhe as maçãs, a boca, os olhos, beijar Raquel.

Deixei-me tanto levar que agarrei a um dedo de minha mão esquerda o protótipo, o resumo do que Raquel fizera comigo: seu nome era oculto entre a aliança dourada e a pele do meu dedo. Eu fugia do trabalho para vê-la, gastava o dinheiro da cerveja com flores em nome de Raquel.

Nem cogitara analisar Raquel por partes. Raquel era pra ser vista inteira, de cima. Raquel era o tipo de paisagem que se olha de longe. É muito perigoso pra perto ficar ou ousar de muito perto olhar.

Essa era Raquel, essa coisa boa de ver de cima. Não aquele vale seco jogado em cima da minha cama cheio de hematomas. Despedi-me do pai dela, que apoiara as mãos em mim, tocara meu rosto agradecido, beijou-me até a testa deixando claro que aquilo que eu fazia era demais. Abaixei a cabeça, aceitando os elogios, firme na idéia de que eu matinha em meu rosto uma pele estática que demonstrava força e destreza para atravessar qualquer problema. Mas não com Raquel. Raquel dos extremos. A Raquel que da mais bela paisagem se tornara o registro mais duro das intempéries.

No nosso frio apartamento, Raquel sobre a cama dormindo em uma expressão feliz – retornara pra casa após meses internada. Uma maquiagem meio borrada que sua irmã lhe fizera antes de sair do hospital caracterizava seus olhos de pálpebras opacas. Ao canto do quarto uma mesa que antes tinha nossos retratos, mas agora trazia entre eles caixas de remédios. Duro de ver junto à imagem do vale seco de Raquel foi aquela haste mecânica que cismava em imitar os contornos humanos e fracassava como uma parte de Raquel. Meu quebra-cabeça perdera as peças. Já não dava mais pra jogá-lo.

Antes, enquanto a família de Raquel engrandecia meu nome dizendo o quanto eu amava ela, eu simplesmente me xingava a todo o momento rasgando a pele que vinha sobre meu rosto. Eu já condenava meus pensamentos, minhas expressões, já condenava Raquel. Por vezes minha vontade foi a de lançar aquela perna mecânica da sacada em cima dos carros desgraçados que passavam sem parar tirando meu sono – a eles eu culpava. Mas me vinha à mente aquele bolo de carne cuspida à terra que se destacava na ponta do toco que restara numa das extremidades de Raquel. A única maneira de não olhar para aquilo era deixando a haste ficar lá por mais dias, até um outro que eu pense em jogá-la fora, em sufocar Raquel, destruir meu quebra-cabeça ou simplesmente deixá-lo num canto, pois já se trata de algo que não posso jogar.

Raquel nunca mais seria sensual. Nunca mais seria minha mulher, seria somente aquele nome rasgado na minha aliança. Raquel já não servia mais de comparação às outras mulheres que podiam caminhar vivamente pelas calçadas da cidade. Raquel já não era mulher. Raquel já era gelada e sem vida.

E permaneceu assim. E eu também.